Publicado por: rafael ruiz | 13/06/2009

Modernidade e terrorismo. Uma reflexão a partir de “Sábado”, de Ian McEwan

Conferência na 1ª. SOFIA da UNIFESP-Guarulhos (novembro 2007)

O motivo dessas reflexões tem um conteúdo fortemente subjetivo. Começaram no dia 10 de setembro de 2001, quando eu deveria estar no aeroporto de Newark, voltando de um Congresso de Historiadores latino-americanos, em Washington.
Sem saber por que, sem nenhum motivo racional aparente, semanas antes fiz algo que nunca tinha feito: adiantei a minha volta um dia. Algo ridículo. Um dia a mais ou um dia a menos, que diferença faria? Além disso, normalmente, cobram uma taxa extra por mudar de dia. Neste caso, como não cobravam, adiantei. Não me agradava a idéia de ficar muito tempo nos EUA.
Cheguei na manhã do dia 10, em São Paulo. Logo depois de um banho e de tomar um café da manhã, começaram as ligações telefônicas. Quando perceberam que eu tinha voltado, me falaram para ligar a tv. O resto, vcs já conhecem.
Anos depois, li um dos meus autores favoritos. Sábado, de Ian McEwan. E pouco depois, já na Unifesp, conversando coma Profa. Ana Lúcia, chegamos à conclusão de que valeria a pena montar uma disciplina eletiva com o título de “De amor e sombras: Modernidade, terrorismo e Utopias”.
O que está acontecendo conosco? Que mundo foi que nós criamos?
No dia 15 de fevereiro de 2003, Henry Perowne, um neurocirurgião famoso e respeitado em Londres, que tem tudo o que a Modernidade prometera – um belo casalzinho de filhos loiros, uma mulher encantadora e inteligente, uma ótima casa na melhor zona residencial de Londres, uma BMW, um emprego absorvente, bem remunerado e com um grande status social – acorda bem cedo, às cinco da manhã, com um pouco de insônia, e vê um avião em chamas indo em direção ao aeroporto de Heathrow. O que deve fazer? Será que deve sair correndo para verificar se alguém precisa da sua ajuda? Não deveria telefonar para o setor de emergência? E se for mais um ataque terrorista? Não seria mais seguro ficar em casa, acordar Rosalynd e sair correndo de Londres? Afinal, tem gente para cuidar desse tipo de coisas.

“Está parado aos pés da cama e, numa atitude que não combina com ele, treme sem decidir acordar ou não a Rosalynd. Nào faz nenhum sentido. Não há nada para ver. É um impulso inteiramente egoísta. O despertador dela vai tocar às seis e meia e, depois que ele lhe contar a história do que acaba de ver, ela não terá a menor esperança de voltar a dormir. De todo modo, ela vai acabar sabendo. Tem um dia difícil pela frente. Seus pensamentos têm um aspecto frágil, fugidio –ele não consegue reter uma idéia por tempo bastante para obrigá-la a fazer sentido. De certo modo, sente-se culpado, mas também impotente. Esses são termos contraditórios, mas não muito, e é o grau da sua superposição, a sua maneira de expressar a mesma coisa de ângulos distintos, que ele precisa compreender. Culpado em sua impotência. Impotentemente culpado. Perde o fio da meada e pensa de novo no telefone. À luz do dia, parecerá negligência não ter telefonado para o serviço de emergência? Ficará óbvio que nada havia a ser feito e que não havia tempo? Seu crime foi estar a salvo no seu quarto envolto num roupão de lã, sem se mexer nem fazer ruído, meio que sonhando, enquanto assistia à morte das pessoas” (p.33).
O que foi que aconteceu conosco?
Durante os séculos XVI e XVII, como desenvolvimento das premissas humanistas do Renascimento, vai-se configurando o Projeto modernista que, de forma simplificada e para efeitos desta conferência, poderíamos caracterizar da seguinte forma: A idéia de uma natureza humana auto-suficiente. Idéia que será uma das questões mais debatidas ao longo de todo o século XVII : se, por um lado, vemos os racionalistas que trabalham com o conceito de “natureza racional”, a partir do qual o homem é visto como alguém que, por natureza, é pleno e capaz de todas as possibilidades humanas –bastando ser educado para isso e desenvolver plenamente a sua razão -, por outro, temos Pascal, para quem o homem é um ser carente, necessitado da graça divina e extremamente contingente; um ser que pode ser capaz de realizar grandes tarefas e, concomitantemente, pode praticar extremas vilanias. Bastaria um segundo, uma ocasião – o aparecimento da contingência – para que toda a grandeza humana fosse sufocada na própria miséria do homem.
Irá surgindo assim um projeto de reforma moral da sociedade baseado em normas, princípios e abstrações conceituais (felicidade, liberdade, igualdade, justiça,bem, mal…) que seriam selecionados e entendidos como ideais morais ou “valores” , que se converteriam, com a coação do Estado moderno, recém-criado, num “cânone autorizado que depois se transformaria num guia para a legislação(…) estabelecendo-se, assim, uma ideologia moral porque esse parece ser o único procedimento para obter a estabilidade necessária na sociedade” .
De certa forma, e isto é de extrema importância para entender o que estou querendo dizer, a vida –especificamente a vida moral, ou seja a minha vida enquanto opções que posso realizar para praticar atos bons ou maus, certos ou errados, justos ou injustos- é vista a partir da aplicação reflexiva (deduzida) de um conceito, de uma categoria ou de um critério que determinam previamente (antes da realização da ação) o que deve ou não ser feito. Simplificando de certa forma, essa moralidade, própria do Projeto modernista, entende que a sociedade poderá ser perfeita desde que todos os homens, já que são racionais, observem, por reflexão racional, as regras morais . E, para isso, a Modernidade encontrou dois grandes conceitos: o modelo e a Utopia.
Se olharmos para o Projeto da Modernidade como um todo poderíamos dizer que se trataria, então, de encontrar um modelo sistemático, orgânico, racional e funcional que possa vir a ser efetivamente realizado e aplicado na sociedade, nos seus mais diversos campos: econômico, social, religioso, político, moral….Esse “modelito” será batizado com o poderoso nome de Utopia, querendo significar que em algum momento, e em algum lugar será mesmo plenamente realizada. A sociedade perfeita, onde não haverá falhas, males e injustiças. E quando verificarmos que isso não está acontecendo, o Projeto moderno nos lembrará: mas dará certo. É só uma questão de reformar algumas peças no sistema.
“Pega o controle remoto, liga o televisor, aperta o botão que retira o som –ainda faltam minutos para o noticiário das nove horas- e enche a chaleira. Que aperfeiçoamentos simples alçaram a humilde chaleira a esse cume de refinamento: o formato de cântaro para aumentar a eficiência, feita de plástico para aumentar a segurança, bico largo para entronar mais facilmente e uma pequena base grossa para receber a energia elétrica. Ele nunca reclamou do estilo antigo –a tampa de estanho que emperrava, a grossa tomada fêmea preta, à espera para eletrocutar mãos molhadas, pareciam fazer parte da natureza das coisas. Mas alguém refletiu sobre tudo isso com cuidado e, agora, não há como voltar atrás. O mundo deve anotar isso: nem tudo está piorando”(p. 87)
Gostaria agora de ler um texto de Ítalo Calvino, Palomar
“Houve na vida do senhor Palomar uma época em que sua regra era esta: primeiro, construir um modelo na mente, o mais perfeito, lógico, geométrico possível; segundo, verificar se tal modelo se adapta aos casos práticos observáveis na experiência; terceiro, proceder às correções necessárias para que modelo e realidade coincidam.
Num modelo bem construído, na verdade, cada detalhe deve estar condicionado aos demais, para que tudo se mantenha com absoluta coerência, como num mecanismo em que parando uma engrenagem todo o conjunto pára. O modelo é por definição aquele em que não há nada a modificar, aquele que funciona com perfeição, ao passo que a realidade, vemos bem que ela não funciona e que se esfrangalha por todos os lados, portanto, resta apenas obrigá-la a adquirir a forma do modelo, por bem ou por mal.
Por muito tempo o senhor Palomar se esforçou por atingir uma impassibilidade e um alheamento tais que só levavam em conta a harmonia serena das linhas do desenho, todas as lacerações e contorções e compressões que a realidade humana deve sofrer por identificar-se com o modelo deviam ser consideradas acidentes momentâneos e irrelevantes…
O que se desejava era um trabalho sutil de ajustamento, que trouxesse correções graduais ao modelo para aproximá-lo de uma realidade possível, e à realidade para aproximá-la do modelo. Na verdade, o grau de ductilidade da natureza humana não é ilimitado como a princípio se pensava; e em compensação até mesmo o modelo mais rígido pode dar provas de uma elasticidade insuspeitada. Em suma, se o modelo não consegue transformar a realidade, a realidade deveria conseguir transformar o modelo”.
Uma das exigências básicas para que o modelo da modernidade funcionasse era a distinção estabelecida por Kant entre razão e sentimento. A sociedade norte-americana e o mundo capitalista por ela criado forjaram uma ilusão que tem afetado a sociedade ocidental nos mais diversos níveis de realidade: na economia, na política, nas relações profissionais, no âmbito familiar, nas universidades, nas empresas, na mídia…Parte-se do pressuposto de que o que interessa é a funcionalidade prática, ou seja, a quinta-essência da racionalidade. E para isso é necessário calar os sentimentos, abafar os sentimentos e, se possível, extirpá-los. Não é de agora que, tanto no mundo da iniciativa privada, quanto na esfera pública, na empresa como na academia (vocês próprios são vítimas e testemunhas disso) se insiste na idéia de que é preciso ser objetivos, frios, secos, sem dar atenção para o subjetivo, os sentimentos, as relações. Aliás, lembro que um dos temas mais recorrentes neste campus nos dias passados foi: o que fizemos das nossas relações? Que relações estão sendo criadas? E lembro também de uma das regras do Método de Descartes –outro pai-fundador da Modernidade- quando dizia que “para agir bem, basta conhecer bem”. Por outras palavras, a Modernidade inventou um sistema onde o conceito, a abstração e a categoria reinam como senhores absolutos. Se eu definir a coisa, se eu entender o conceito da mesma e se eu conseguir expressá-lo, então a coisa funciona, dá certo, estamos salvos. E Bin Laden mostrou que não é bem assim, que o mundo não é uma idéia, que a realidade é bem mais complexa do que gostaríamos, que não basta pensar que somos dois em um (razão e sentimento), mas um feito dois. Somos, se tivermos infelizmente que definir-nos, racionais-sentimentais. Quer o modelo racional queira, quer não.
É sintomático pensar que, em geral, quando algo não funciona, quando algo não vai bem, quando ocorre alguma falha no sistema o que mais nos apavora é saber que aquilo foi motivado por uma “falha técnica”. O erro humano já é previsível, o técnico, não. O erro técnico simplesmente, no mundo moderno, não pode acontecer, e o humano, quando acontece, se deve ter com ele tolerância zero.
“As notícias chegam enquanto ele está moendo os grãos de café. A nova locutora é uma mulher bonita, de pele escura, cujas sobrancelhas depiladas e muito arqueadas exprimem surpesa diante do desafio de mais uma manhã. Primeiro, imagens de uma ponte, em um auto-estrada, por onde passa uma infinidade de ônibus com manifestantes, que acorrem à cidade para o que se espera que seja a maior manifestação de protesto jamais vista. Em seguida, um repórter no meio de um ajuntamento inicial de manifestantes, no Aterro. Toda essa felicidade em exibição é suspeita. Todos se emocionam quando ficam juntos, nas ruas –as pessoas tanto se abraçam a si mesmas, ao que parece, quanto se abraçam mutuamente. Se elas pensam –e podem ter razão- que a continuação da tortura, das execuções sumárias, da limpeza étnica e dos genocídios eventuais é preferível a uma invasão, deviam ter um aspecto mais soturno. O avião, o avião de Henry, é o segundo assunto. Uma falha elétrica é a causa possível do incêndio (….). As declinantes chances de vida de uma notícia frustrante –nenhum vilão, nenhuma morte, nenhum desfecho em suspenso- são reanimadas por uma dose de controvérsia fabricada: localizou-se um especialista em aviação que está disposto a dizer que foi imprudência trazer um avião em chamas por cima de uma área densamente povoada, quando havia outras opções. Um representante das autoridades do aeroporto diz que não houve ameaça nenhuma para os londrinos. O governo nada comentou, ainda” (p. 88)
Parece-me que não seja necessário esgrimir muitos argumentos para comprovar um fato que todos experimentamos como uma profunda e permanente realidade: temos criado um mundo formatado: racional, técnico, com regras e procedimentos seguros, confiável, onde tudo, absolutamente tudo é previsível, até os erros e os consertos do próprio sistema. O preço de tudo isso? a extirpação do afeto, a eliminação ou repressão do sentimento. Ou, por outras palavras, o triunfo da razão e –por usar umas palavras de C.S.Lewis- a abolição do homem.
Que homem somos nós? Que tipo de homens a nossa cultura está criando? Henry Perowne é um de nós. Pior. Podemos ser todos nós. Está tranquilo no refúgio do seu lar e da sua posição sócio-econômica, acha uma chatice a manifestação contra a invasão do Iraque porque vai atrapalhá-lo para chegar na hora no seu joguinho de squash. O grande problema da vida dele, naquele sábado, é ganhar do seu amigo, outro médico neurocirurgão. Mas não ganha, pede o jogo por um ponto. O mundo é bem injusto. Dentro do carro, a caminho do jogo, começa de novo a devanear nos seus pensamentos:
“A despeito de todas as dificuldades, das contramedidas instintivas, continuamos a observar o rosto com atenção, a tentar ler o que ele diz, avaliar as intenções. Amigo ou inimigo? É uma preocupação antiga. E, apesar de, ao longo das gerações, só termos conseguido acertar um pouco mais da metade das vezes, ainda vale a pena fazer isso. E, mais que nunca agora, à beira da guerra, quando o país ainda imagina que pode deter esse processo antes que seja tarde demais. Será que esse homem, Blair, acredita sinceramente que fazer a guerra nos deixará mais seguros? Será que Saddam possui armas de um potencial aterrador (…) Pode estar prestes a cometer um montruoso erro de cálculo. Ou talvez dê certo –o ditador derrotado, sem causar centenas de mortes e, após um ou dois anos, uma democracia, enfim, secular ou islâmica, aninhada no meio das tiranias esgotadas do Oriente Médio. Preso no trânsito, junto com múltiplos rostos, Henry experimenta sua própria ambivalência como uma forma de vertigem, de indecisão estonteante. Na neurocirurgia, ele escolheu uma profissão simples e segura” (p. 171).
Dois em um ou um feito dois? Como é que pudemos cair na armadilha da Modernidade ao acreditar que poderemos ter certeza e segurança? Como é que não percebemos ainda que o núcleo, o cerne da existência humana, de forma constitucional é precisamente o contrário: a insegurança e a incerteza. O reino da contingência?!
Gostaria de citar aqui o historiador Michael Oakeshott, quando afirma que a desgraça atual, que percebemos existencialmente na nossa sociedade, baseia-se na pretensão racional de construir uma moralidade “científica”, apoiada no consenso e na imposição de ideais abstratos e não na praxe e na vivência circunstanciada, caso a caso, das virtudes concretas, que sempre podem ser realizadas e exercidas de formas múltiplas e diferentes . E, inclusive, por força da contingência das circunstâncias, mesmo que bem intencionadas, podem dar errado ou, até, podem não ser sequer realizadas.
Uma das consequências mais funestas do triunfo da “razão eficiente” no mundo contemporâneo é precisamente o convencimento pré-potente e arrogante de que a simples razão, a pura técnica, o argumento frio de que “isto é assim porque é assim que funciona” é suficiente para que todos se convençam da “verdade das nossas soluções” e, portanto, do “triunfo da nossa forma de viver”. E se as coisas não fossem assim? Basta olhar para o outro, para grande parcela da humanidade para dar-se conta de que nem todos se importam com esse tipo de argumentos, de que a eficiência e a eficácia não são os valores supremos para a maioria das pessoas. E se for assim, por que não vamos tentar mudar o nosso modelo, por que não levantar a possibilidade de que talvez seja nosso modelo que precise se adaptar à realidade humana, que é por demais frágil, contingente e insegura, como afirmava Pascal?
Como professor de História gostaria de lembrar um pensamento, quando nos enfrentamos com este mundo de hoje e pensamos no mundo que virá, que me parece decisivo e que –pelo menos desde 1500- tem sido o ensinamento, umas vezes mudo e suplicante, e, outras, desgarrado e dolorido, que a América tem oferecido ao mundo: é precisamente no conhecimento do outro que acontece a possibilidade de conhecermo-nos a nós próprios.
É precisamente isso que um mundo dominado pela “eficiência técnica” e pela “razão organizadora” nos impede de realizar. Não existe “outro” quando o que prevalece é a razão e a técnica. Muito menos existe outro quando o que prevalece é o capital e a frieza racional nas relações sociais e de trabalho. Não há espaço para a singularidade, para a individualidade, para a unicidade quando o que prevalece é o número, a estatística e o sistema padronizado. Não há espaço para o amor –único lugar possível de encontro pleno com o outro, quando o que prevalece é a noção de que o tempo é dinheiro.
Uma das questões mais decisivas neste momento é precisamente se haverá possibilidade de os Estados Unidos, diante dos acontecimentos, virem a entender mesmo “o outro”? O perigo –que terá o efeito de uma bomba retardada- será se, como costumou acontecer até agora, os EUA se empenharem em dizer e, pior ainda, pensar que, pelo fato de terem vencido esta guerra, ou esta etapa da guerra, isso significa que os sobreviventes estão do lado deles ou, o que significa o mesmo para os norte-americanos, que os sobreviventes pensam como eles (afinal, não é à toa que uma das primeiras declarações do Presidente norte-americano foi que, nesta guerra, se está ou do nosso lado ou contra o nosso lado). Se for essa a conclusão a que os EUA chegarão, então podemos ficar seriamente preocupados porque não terão tido ainda a experiência existencial necessária para irem além do próprio umbigo.
Se há uma lição que se destaca de toda a história da conquista e colonização da América é precisamente que “vencer pela força das armas” não é sinônimo de convencer. E que “alianças estratégicas” não significa comunhão de idéias. Por outras palavras, o que é de se temer não é se haverá um ressurgimento de outros Bin-Laden –coisa que, infelizmente poderá acontecer perfeitamente- mas se os Estados Unidos serão capazes de entender que o mundo por eles criado já não é mais viável porque a partir de agora foi introduzida a desconfiança no sistema; capazes de entender que não é a “eficiência técnica”, o “conforto material” e as relações “clean” que resolverão os problemas da humanidade; que é preciso uma atitude diferente perante o mundo atual, onde as relações, as formas de pensar e, principalmente, as formas de conviver terão de ser estabelecidas de forma completamente diferente ao que vinha acontecendo até agora. E, fundamentalmente, se os Estados Unidos serão capazes de perceber que, assim como a febre é o sinal de que o corpo não anda bem, a queda das duas torres foi sinal de que, parafraseando Shakespeare, tem algo de podre no reino da Dinamarca. No reino da Dinamarca, e não apenas no mundo do Oriente Médio.
O nosso doutor ficou parado no trânsito por causa da manifestação, e na pressa, acabou batendo noutro carro. De lá sairam 3 marmanjos, um deles, Henry Perowne percebeu que tinha uma deficiência psíquica neurocerebral, por causa das suas manifestações. Quase se atracam, quase chegam às vias de fato, mas não aconteceu nada. Depois, perde o jogo, volta para casa e se dedica a preparar o jantar, que terão o casal com os filhos e o avó, pai dele. A filha estava voltando naquele dia para casa. E logo na chegada, tem uma discussão com o pai sobre os acontecimentos recentes.
“E se tivermos uma guerra curta, e se as Nações Unidas não se desmancharem, não houver fome, não houver refugiados nem invasões dos vizinhos, se Bagdá não for arrasadas e houver menos mortes do que Saddam causa no seu próprio país em um ano? E se os americanos tentarem organizar uma democracia, injetarem milhões de dólares e forem embora porque o presidente quer ser reeleito no ano seguinte?
-Pai, você não é a favor da guerra, é?
- Ninguém racional é a favor da guerra. Mas, daqui a cinco anos, talvez não estejamos arrependidos dela. Eu adoraria ver o fim de Saddam. Vc tem razão, pode ser um desastre. Mas pode ser o fim de um desastre e o começo de alguma coisa melhor. É tudo uma questão de resultados, e ninguém sabe quais serão eles. É por isso que não posso me imaginar na rua, participando da passeata.
- Então, você é a favor da guerra?
- Como eu disse, não sou a favor de nenhuma guerra. Mas esta pode ser menos má. Daqui a cinco anos vamos saber.
- Isso é muito característico.
Ele sorri com desconforto
- De quê?
- De você. Você está dizendo o seguinte: deixe que a guerra siga em frente e, daqui a cinco anos, se der certo, a gente é a favor, e se não der certo, não somos responsáveis. Você é um homem instruído, que vive no que gostamos de chamar de democracia madura, e o nosso governo está nos levando para uma guerra. Se você acha que é uma boa idéia, muito bem, diga isso, defenda sua posição, mas não fique em cima do muro. Vamos mandar os soldados ou não? Está acontecendo agora. E especular sobre o futuro é o que fazemos,às vezes, quando fazemos uma opção moral. Isso se chama pensar à luz das consequências. Sou contra essa guerra porque acredito que coisas terríveis vão acontecer. Você parece achar que algo bom virá daí, mas não assume a posição em que acredita” (p. 226).
Nada de mais moderno. A utopia futura, o como será bom daqui a cinco anos, legitima e permite as maiores atrocidades, as maiores violências, as maiores injustiças. Para suavizar toda essa violência, a Modernidade pensa em categorias, nunca em pessoas. A Modernidade não conhece João e Maria, não conhece André e das Dores, nunca ouviu falar de Camilas e Fernandos. Tudo é clean, abstratamente conceitual: fanáticos vs liberais, democratas vs fascistas, esquerda vs direita, progressista vs reacionário. Vcs já perceberam como o mundo fica bem mais simples quando tudo se reduz a conceitos categóricos. É tão fácil colocar todos nos mesmos clichês, tão fácil fazer abstração da história, dos ideais e das vidas de cada um, desqualificando-os com um simples: fanáticos. Corintianos. Palmeirenses.
Não é de agora que se vem percebendo os sintomas da falência da racionalidade para dar conta da sociedade moderna. Basta abrir um jornal ou assistir a um noticiário de tv para perceber que algo não corre bem com os homens e com as mulheres dentro da sociedade auto-intitulada do bem-estar. Não é de agora que, nos âmbitos intelectuais e científicos e em grandes parcelas da mídia, causa já uma certa estranheza falar de “modernidade” e de “racionalidade” e de “universalidade” quando vemos que tanto o mundo quanto as pessoas estão se fragmentando e se descompondo aos pedaços. Não falaria nenhuma novidade aqui se dissesse que estamos já em plena pós-modernidade. Contudo, gostaria de abusar da paciência de cada um para tentar explicar brevemente quais deveriam ser os caminhos por onde devemos conduzir, do meu ponto de vista, esta “pós-modernidade” para que não venha a ser mais uma nova ilusão.
Como já disse, a crise do mundo atual é uma crise de confiança. Os pilares que fundamentavam nossa sociedade –a racionalidade técnica e o contrato social- ruíram junto com as duas torres do WTC. Agora, olhamos para os destroços do WTC e perguntamo-nos: para quê fizemos tudo o que fizemos? Agora, olhamos para o vazio deixado no skyline de New York e defrontamo-nos com o nosso próprio vazio: afinal, o que é o homem? afinal, de que adiantou esse esforço insano de converter o homem numa máquina, quando nem sequer a máquina é confiável?
Temos de re-encontrar um novo homem que fundamente uma nova humanidade. Um homem que não esteja escindido entre razão e sentimento, entre objetividade e subjetividade, entre matéria e espírito. não se trata de cair na armadilha de pensar num homem abstrato. E, para evitar essa armadilha, acredito que não podemos mais ficar debatendo o conceito de homem. O homem não é reduzível a conceito. E se me perguntarem ou disserem que, então, não dá para saber o que é um homem, então responderia com o seguinte conceito: o homem é tipo a gente. Por isso trabalho com a Literatura, porque acredito que a única forma de perceber o que é o homem é precisamente descrevendo-o, narrando-o, encontrando-o nas inumeráveis páginas criadas por Shakespeare, Dostoievski, Sallinger e tantos outros.
Temos de criar condições para que a sociedade estabeleça definitivamente relações onde seja possível a existência e a comprensão do homem como um todo; onde não seja necessário proceder a um esfacelamento do próprio homem para poder viver; onde os laços sentimentais e afetivos possam conviver com os pensamentos, os raciocínios e os argumentos, onde se possa viver dignamente como homens e mulheres, mesmo que às vezes, ou mesmo que muitas vezes, a coisa não funcione pelo simples motivo de que somos humanos. O que estou querendo dizer é que quando digo que o homem é racional, aliás quando Aristóteles disse, poderia estar dizendo que é relacional. Razão é relação, daí os números racionais e irracionais. Foi uma apropriação da Modernidade a idéia de que racional é só mental.
O que estou querendo dizer é que –e não sei se vcs pensaram nisso quando o organizaram, e foi só uma maravilhosa intuição- é preciso muito peito para assistir a uma conferência de Marilena Chauí e, depois, convidar a platéia para passar a noite à luz de velas e violões. E vcs o fizeram. Não é necessário ser sisudo para ser racional. Pode-se pensar e ser feliz e ter sentimentos, ao mesmo tempo. E sorrir.
O homem é um ser de relações, um ser aberto a relações. É próprio do homem estar submetido a uma forma de ser, a uma estrutura interior e exterior que não depende exclusivamente dele; mas o fato de que seja aberto carregará sempre o sinal do risco, a margem de insegurança, a possibilidade do erro e do fracasso, que são a marca do triunfo da liberdade humana perante a exatidão tirânica da máquina. Ou seja, a sociedade do futuro tem de convencer-se de que onde houver um ser humano, haverá sempre um risco e que a eliminação do risco trará como consequência inevitável a eliminação do humano.
E precisamente por ser aberto é que se pode afirmar que o homem é um ser de encontros. Temos de tornar verdadeiramente humanas as relações que a própria vida nos conduz a estabelecer. Por exemplo, isto aqui pode ser mais um simples congresso reduzido a simples informação e troca de cartões ou pode converter-se em um verdadeiro encontro entre pessoas, onde as relações são verdadeiramente pessoais, onde se é persona porque o que se diz “soa”, “faz eco”, “encontra um outro ser que “vibra” junto: per-sonat.
O fato de estar juntos não produz um encontro. O encontro, quando é rigorosamente pessoal tem algo de enormemente revelador, criativo, enriquecedor, cuja característica principal é que é algo mútuo, de duas mãos. Passamos a compartilhar juntos uma série de possibilidades, de projetos, de pensamentos e, necessariamente, de afetos e sentimentos. E não apenas isso, mas, e me parece que é o mais decisivo de tudo, ambos nos sentimos e somos, de fato, modificados. Quando se dá um encontro, não se trata apenas de que “me aconteceu algo”, mas é que “algo ficou em mim”, e “algo ficou em vocês”, como algo que nos constitui, que está a partir daquele momento incorporado em nossas pessoas e vai condicionar o resto do que iremos vivendo.
Evidentemente, para viver assim torna-se necessário alterar o sistema, mudar a utopia. Vocês já se perguntaram por que é tão estranho no mundo acadêmico falar de sentimentos, de paixões, de afeto, de amor, de coração? Nada disso faz sentido dentro de uma lógica racional, técnica ou acadêmica. Contudo, nós somos assim. O homem é assim. A questão decisiva seria, portanto: então, se somos assim, o que é que podemos fazer?
Quero ler agora um texto da Susanna Tamaro, Vá aonde seu coração mandar.
“A essa altura dos acontecimentos, o coração já faz pensar em algo ingênuo e barato. Quando eu era jovem, ainda era possível mencioná-lo sem embaraço; agora, porém, é um termo que ninguém mais usa. As raras vezes em que é mencionado só o é para que seja lembrada alguma das suas disfunções: já não é o coração em sua totalidade,e sim uma isquemia coronária, uma ligeira dor atrioventricular; mas dele inteiro, dele como centro da alma humana, já não se fala. Parece insensato. E por que cargas dágua deveria ser insensato? Talvez porque o coração se pareça com uma câmara de combustão? Porque está escuro lá dentro, há escuridão e fogo? A mente é tão moderna quanto o coração é antigo. Quem liga para o coração –pensa-se então- ainda está perto do mundo animal, do descontrolado, ao passo que quem cuida da razão se aproxima das mais elevadas reflexões. E se as coisas não fossem assim, se a verdade fosse exatamente o contrário? Se fosse justamente esse excesso de razão o que desnutre a vida? (61).
Se as coisas são assim, e se o sistema –entre outros, o modelo acadêmico- diz o contrário, porque teimar? Por que não adaptar o modelo a essa realidade?
É preciso estar dispostos a tratar o homem como o que ele é: um ser aberto a relações. Um todo organizado e em equilíbrio, porém, aberto, por causa da sua liberdade, ao desconhecido, ao inefável, ao surprendente, ao imprevisível, ao risco, ao engano, à verdade e à mentira, à vileza e à grandeza.
A família do neurocirurgião está toda reunida em casa para o jantar. A filha leu algumas poesias que fez, mas o pai nem escutou, apenas o avó. O pai não conseguia prestar atenção a sutilizas poéticas. Porém, de repente, os 3 marmanjos entram na casa, colocam uma faca na esposa e pedem para a filha se despir. Só então o pai precebe que a filha estava grávida de dois meses. Os invasores comemoram e dizem que grávida é mais gostosa. Contudo, aquele meio neurótico repara no livro da garota, pergunta se foi ela que escreveu e pede para ler uma poesia. A menina hesita, mas começa a declamar. Quando acaba, exausta e nervosa, o cara pede para ler de novo. Só então o pai começa a prestar atenção porque percebeu que há uma mudança se processando no comportamento do invasor.
“os versos o surpreendem, é óbvio, ele não prestou antes atenção. Os versos são melodiosos, meditativos e estudadamente arcaicos. Ela se projetou para um século anterior. Na primeira vez, Henry perdeu a menção aos “rochedos da Inglaterra cintilantes e vastos, acima da baía tranquila”. Agora ele vê o assaltante ali parado e sozinho, os cotovelos apoiados no parapeito, ouvindo as ondas que trazem consigo “a nota eterna da tristeza”. Não é toda a antiguidade, mas apenas Sófocles que associou esse som ao fluxo e refluxo “velados da miséria humana”. Mesmo no estado em que se encontra, Henry torce o nariz ao ouvir a referência a ‘um mar de fé’ e a um radiante paraíso de integridade perdida, no passado remoto. Em seguida, mais uma vez, é através dos ouvidos do assaltante que ele ouve “o longo rugido do mar que recua, retrocede, ante o hálito do vento da noite, ao pé dos vastos penedos tristonhos e entre os desnudos seixos do mundo”. A frase ressoa como uma maldição musical. O apelo para serem fiéis um ao outro soa inútil, em fase da ausência de alegria, ou de amor, ou de luz, ou de paz, ou de “socorro para a dor”.Mesmo num mundo “onde os exércitos ignorantes combatem à noite”, Henry descobre, ao ouvir pela segunda vez, não haver nenhuma referência a um deserto. A melodia do poema, conclui ele, está em choque com o seu pessimismo.
- Você escreveu isso? – perguntou surpreso o assaltante-. Você escreveu isso?! É lindo. Você sabe disso, não é? É lindo. Lindo e você o escreveu.
Ela não se atreve a falar nada.
- O poema me faz pensar no lugar onde eu fui criado. Vamos embora, mudei de idéia!. (p. 268)
É preciso aceitar que as relações humanas vão além, muito além, mas muito além mesmo das relações laborais, produtivas ou econômicas. É preciso convencer-se de que o tempo do homo faber acabou, que o ser humano está muito além da simples realização de um produto. É preciso introduzir o carinho e a ternura como os elementos constitutivos de tudo o que seja humano. É preciso, decididamente, deixar de lado a espiral de poder e de domínio e estabelecer um mundo onde serviço, ajuda e amor não sejam acolhidas com um sorriso cético ou irônico, mas como as possibilidades da realização do humano.
Para encerrar, gostaria de fazer minhas umas palavras pronunciadas em 1962 pelo escritor e pensador Romano Guardini, olhando para a Europa que ainda estava por ser feita e que, nos anos sucessivos não soube fazer nada disso, muito pelo contrário. Umas palavras que que poderão servir-nos de parábola e analogia para a tarefa de construção não sei se da nova ordem mundial, mas talvez disso que temos entre mãos e chamamos de campus: “a Europa criou durante séculos uma magnífica cultura do poder; agora tem a tarefa de criar uma cultura do serviço. Que nenhum europeu tenha medo desta palavra –serviço-, porque este tipo de serviço não avilta, nem rebaixa; mas, pelo contrário, eleva e dignifica tanto a um quanto ao outro, tanto a quem presta um serviço quanto quem o aceita. É a esta atitude que eu chamo de solidariedade”.
Vocês tiveram uma grande idéia quando decidiram fazer essa semana. Penso que tudo isso que falei já está acontecendo no campus, e está sendo muito importante. E penso que nem todos percebem a dimensão do passo que vocês deram. Mas o passo foi dado. E isso muda tudo.


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