Publicado por: rafael ruiz | 13/06/2009

O Papel das Humanidades na Universidade

II SOFIA da UNIFESP-Campus Guarulhos

1. Para que servem as Humanidades?
É um lugar comum dizer que as Humanidades não servem para nada; que não se resolve nenhum problema à base de humanidades e de conhecimentos tão inúteis como filosofia, história, literatura ou arte, já que o conhecimento deve ser prático, tem de ser útil. Há mesmo uma enorme prevenção, principalmente por parte daqueles que se dedicam a essas áreas do conhecimento, com o próprio termo de “Humanidades”, preferindo o de “Ciências Humanas”.
O tema desta conferência não pretende tratar dessas diferenças terminológicas. A minha opção já está tomada na própria escolha do tema, contudo o que me interessa, aqui e agora, não é discutir os termos e os nomes, mas o que significa um curso de história, de literatura, de arte ou de filosofia dentro de uma Universidade.
Desde que Francis Bacon instaurou seu famoso “Saber é poder” parece como se tudo na vida consistisse em “dominar a Natureza”, ou seja, dominar as coisas, as pessoas, as relações, os problemas. Mas podemos inverter os termos da questão: será que tudo na vida se reduz a problemas? será que tudo consiste em dominar? será que tudo é uma relação de ganhar-perder? não será que a vida é de uma outra forma e estamos olhando para ela com as lentes erradas – lentes excessivamente monocromáticas!-?
Vamos tentar olhar para a realidade da vida de uma outra forma. Vamos esquecer do “lado prático”. O que vemos? A vida humana desenvolve-se através de muitas relações, as mais variadas possíveis: relações familiares, profissionais, de amizade, de convivência mais ou menos quotidiana; relações íntimas, particulares, solitárias; relações com o sobrenatural, com a Natureza, com a cidade, com a sociedade… Essas relações não são de forma alguma aleatórias. São relações carregadas de sentido. Aliás, precisamente por não encontrar nenhum sentido nesse tipo de relações que os homens pragmáticos se desesperam e se deixam vencer pela angústia, pelo medo, pelo ceticismo ou por qualquer outro fantasma do mundo contemporâneo.
Voltemos ao pragmatismo: há um grande número de estudantes universitários que querem estudar algo prático, algo que sirva para resolver alguma coisa. Podemos substituir o termo “algo” por “engenharia, medicina, computação, direito…” e o termo “alguma coisa” por “prédio, tumor, informações, aluguel…”. Muito bem. Dessa forma, conseguimos resolver vários problemas da nossa vida. Podemos dizer que talvez uns 20 ou 30% dos problemas que temos na vida estão resolvidos com esse tipo de conhecimentos; conhecimentos que, por sua vez, ou temos ou podemos contratar um bom profissional para resolvê-los.
E depois? como resolvemos os outros 70 ou 80%? Aliás, será que a questão é: como resolvemos? será que esses 70 ou 80% – que é a maior parte da nossa vida – se reduz a problemas? e se assim for, será que são problemas com solução? e se tiverem solução, será que é uma solução única?
Vamos voltar a olhar para a realidade de uma outra forma: como sei quando devo exigir dos meus filos ou dos meus pais ou dos meus amigos e quando fazer de conta que não aconteceu nada? como sabe alguém quando está apaixonado e quando é correspondido? como se pode saber até que ponto sacrificar-se e quando se está fazendo um papel ridículo? como se pode falar com Deus e como se pode ouvi-lO? como encontrar um limite entre aproveitar os meios que a Natureza nos dá e não abusar dela? como sei como devo comportar-me com os vizinhos? é melhor ser amável ou melhor um tanto frio? e, por falar nisso, em que consiste ser um tanto frio…?
As relações humanas são relações carregadas de sentido. Queremos saber, queremos mesmo – com uma força tal, que talvez nós próprios nem saibamos ao certo com quanta força queremos- conhecer o sentido de tudo isso, dessa enorme parcela da nossa vida que não parece possa ser reduzida a soluções bipolares (ou isto ou aquilo; ou quente ou frio; ou dentro ou fora; ou tudo ou nada…).
Viver uma vida pragmática, prática, de respostas “objetivas” -como se costuma dizer- implica transformar tudo isto em relações bipolares; significa desvirtuar a realidade mais real; significa reduzir a vida a duas cores -preto ou branco-, quando a verdade é que a vida é multifacetada, policolorida. As relações humanas -as verdadeiras relações humanas- são relacionamentos abertos, dialógicos, plurais.
Como afirma López Quintás, quando a vida é entendida apenas de uma forma prática, então, a maior parte da vida é vista como um dilema, como um problema a resolver; porém, quando a vida é encarada como um âmbito de relações humanas extremamente abertas, então os problemas se transformam em contrastes e se aprende a viver a vida verdadeiramente humana. “Tomar consciência desta transformação significa um passo decisivo para a maturidade pessoal”. Dessa forma, quem adota uma atitude aberta e criativa perante a vida transforma o que seria um problema, por vezes insolúvel, num contraste, cheio de força e fecundidade.
Aprender a ver a vida como um âmbito de relações e não como um problema é um dos principias papéis da Universidade, porque o mundo não é feito apenas de pedaços de concreto, postes de iluminação e redes eletromagnéticas. A vida é feita de paixão e de amor, de ternura e sentimento, de angústia e de dor. É por isso que, desde os seus primeiros tempos, a Universidade era composta pelas disciplinas que, mais tarde, passaram a ser integradas no que em tempos foi chamado de Humanidades e em outros tempos de Ciências Humanas (embora com um certo sem jeito por não se saber bem como as ciências se transformam em humanas), enquanto que a física, a engenharia ou mesmo a medicina eram outros tipos de conhecimentos. Também importantes, mas sem dúvida nenhuma, não eram os decisivos. Só com as Humanidades podemos penetrar no universo do humano. Um universo que não é composto de conceitos e categorias, necessariamente abstratos, a não ser que queiramos desumanizar-nos, mas composto de realidades complexas, ambíguas e contrastantes. Um universo onde o conhecimento não pretende, ou não deve pretender, possuir a verdade, objetivá-la ou dominá-la, mas apenas aproximar-se dela, respeitosamente, para tentar compreendê-la.
Todos conhecem o mito de Édipo e a Esfinge. Era um monstro que continha várias formas em uma só. Tinha rosto e voz de virgem, asas de pássaro e garras de grifo. Vivia numa montanha isolada de Tebas e emboscava os viajantes, aos quais subitamente atacava e dominava com os seus enigmas. Decifra-me ou devoro-te. Se os infelizes viajantes não conseguiam responder às suas adivinhações, ela os fazia em pedaços ao ver a sua confusão e hesitação. Apenas Édipo conseguiu resolver o grande enigma: qual era o animal que nascia com quatro pernas, em seguida passava a ter duas, mais tarde três, e finalmente quatro. Édipo respondeu com rapidez que se tratava do homem, que nasce e anda de quatro, fica em pé na flor da vida, tem de se apoiar numa bengala quando velho e, finalmente, volta a andar de quatro na decrepitude.
A fábula da Esfinge pode ser aplicada às ciências. Instiga com suas perguntas, seduz com sua beleza, e destroça-nos quando não sabemos dominá-la. Contudo, a verdadeira questão é que os enigmas da Esfinge são de dois tipos; os relativos à natureza das coisas, e os relativos à natureza do homem. Só Édipo derrotou a Esfinge, porque quem possuir uma visão ampla e penetrante da natureza do homem ultrapassa a ciência. Não há universidade sem Humanidades. Uma Universidade apenas técnica e científica não é suficiente para que o ser humano saiba precisamente como ser humano.

2. A vida como âmbito de encontros
Todas as coisas que estão à nossa frente podem ser chamadas com propriedade de objetos (ob-iacere= estar em frente). São realidades objetivas. E são precisamente elas as que podem ser pesadas, medidas, agarradas, dominadas, submetidas…
Porém, nem tudo no mundo do real é assim. Há algumas coisas reais -insisto na idéia de “reais” para que não se possa dizer que estou falando de flores, como cantaria Geraldo Vandré…- que, de certa forma, são mensuráveis, domináveis, manipuláveis e, de outra forma, não. Posso medir uma pessoa; posso pesar uma criança; posso dominar um ladrão… Mas, e o medo? E o amor? E o valor da criança? E os desvelos para cuidá-la? Como posso equacionar o aspecto ético, profissional, religioso, familiar, social, de alguém? Como posso saber até onde chega exatamente a influência que se irradia de uma pessoa de bem e de um malvado?
Tudo isto também é real -aliás, profundamente real- e temos de convir que nada disso é uma realidade do mesmo tipo que a realidade dos objetos; que nada disso pode ser reduzido ao cálculo preciso e exato; que, afinal de contas, toda essa realidade, de certa forma, escapa aos nossos sentidos, pelo menos àqueles sentidos que têm por finalidade medir, pesar, quantificar.
O homem desenvolve-se de tal forma que se pode dizer que é um criador de vínculos. Vínculos que implicam influências mútuas, experiências recíprocas. Esse entranhado de experiências vai forjando a própria personalidade, vai definindo cada vez melhor o próprio caráter, vai constituindo como que “uma segunda natureza”. É por isso que o homem não pode ser reduzido a um objeto; o homem constitui um âmbito de realidade: uma trama de relações e de vínculos.
O homem não pode ser reduzido a um objeto fechado, delimitado, acabado de uma vez para sempre. O homem, como muito bem aponta Julián Marías, é “futurizo”, “projectivo”. Tem sempre uma realidade possível perante si. Está aberto a inúmeras possibilidades. É alguém com  “entusiasmo” e, portanto, cheio de projetos que poderá vir a realizar ou não.
Todo este conjunto de qualidades reais são englobadas pelo termo “âmbito”. O homem é um ser “em situação”, não um objeto; e está chamado a realizar os mais diferentes encontros com outros seres em situação, e a estabelecer uma infinidade de relações que configuram o emaranhado vital, o âmbito existencial em que o homem se desenvolve.
Essas categorias -”circunstância”, “âmbito”- estendem-se também a tudo o que se relaciona com o homem. Assim, por exemplo, uma bola é algo objetivo, mensurável, fechado; porém, converte-se num âmbito enquanto o homem a utiliza para o esporte. É por causa dessa conversão em circunstância, em âmbito, que surge a série de relações e relacionamentos humanos que giram ao redor do esporte: a festa, a competição, as torcidas, as paixões…
Todas as realidades que não se reduzem exclusivamente à categoria de objetos -incluindo também aquelas que, além de serem objetos, podem vir a criar circunstâncias, âmbitos- são “realidades inseridas no ambiente: oferecem possibilidades para agir criativamente e, portanto, possuem certa iniciativa, certa “personalidade” e exigem um trato respeitoso”.
O que se quer significar com “personalidade” e “trato respeitoso”? Que, ao tratar os objetos como âmbitos, elevamos os objetos, os aperfeiçoamos e, quando não fazemos assim, os rebaixamos, os reduzimos à sua condição de simples objetos. Não somos capazes de extrair deles todas as possibilidades que encerram e, de certa forma, nos reduzimos também a nós próprios, porque perdemos as chances de nos desenvolver, de nos aperfeiçoar: nos objetos não vemos nada mais além do que objetos, ou, como diria Adélia Prado, na pedra que está no meio do caminho, de Carlos Drumond, não vê mais do que uma pedra.
Um exemplo? um berimbau. Mais concretamente, um berimbau nas mãos de algum europeu nórdico. Provavelmente só conseguirá vê-lo como um arco esquisito; porém, esse mesmo arco esquisito numa capoeira dará ensejo a um entramado de relações vivas, criativas, inúmeras. O berimbau foi visto como âmbito.
Quando o homem adota perante a vida uma atitude criativa, está convertendo constantemente os objetos e os espaços em âmbitos. Por isso é fundamental que as crianças possam brincar imaginativamente, que não lhe dêem os brinquedos já prontos, que não esteja tudo já “imaginado” pelo videogame. É fundamental que uma criança pegue um pedaço de madeira e o transforme num cavalo, num soldado, num carro… Está aprendendo a viver de forma criativa; está aprendendo a transformar os objetos em âmbitos. Por isso mesmo é fundamental que a Universidade esteja muito além da técnica e da ciência, que a Universidade acolha e privilegie as Humanidades porque é fundamental, mas fundamental mesmo que o estudante universitário se encante, como Ulisses, com o canto das sereias de uma argumentação, com o doce perfume da rosa feita nome e conceito, como Julieta ou, como Conrad, se horrorize com o coração das trevas da brutalidade.
Quando Ortega y Gasset afirmou “Eu sou eu e minhas circunstâncias” estava sublinhando o caráter relacional do ser humano. De fato, o homem realiza-se em constante interação com tudo o que está ao seu redor. O homem é um ser de encontro. Por isso, a Universidade não pode ser fator de isolamento, de ensimesmamento, de fechamento. A Universidade sempre foi e sempre deverá ser o local de encontro entre professores e estudantes; entre estes e a sociedade. Um lugar aberto onde seja possível o diálogo, a discordância e a concordância, a reflexão e a crítica, a certeza, a incerteza e a dúvida. Um lugar em que todos e cada um encontrem os seus próprios caminhos para entender o mundo e entender-se a si mesmos.
George Steiner, ao falar sobre a sua experiência universitária, afirmava que uma universidade digna desse nome é aquela que permite o contato pessoal do estudante com o professor. O acadêmico, o professor não pode ser uma pessoa enclausurada na sua sala ou no seu lugar de pesquisa. Para que haja Universidade é necessário cruzar-se diariamente no caminho. As pessoas que compõem e formam a Universidade devem ser perfeitamente visíveis, porque para que haja verdadeiro conhecimento universitário é preciso proximidade, ver e escutar de tal maneira que os estudantes possam chegar a ser infectados, contagiados pelo perfume do real. O processo do conhecimento universitário é, antes de tudo, um processo de contaminação implosiva e acumulativa.
Porém, é necessário determinar como devem ser essas realidades relacionadas com o homem para que, de fato, possam ser uma “forma de encontro”, possam “criar um âmbito”. O entremeado de possibilidades só pode se dar entre âmbitos, não entre objetos.

3. As Humanidades e a educação
A educação deve ter um objetivo claro: ensinar a distinguir os diversos modos de realidade e dar o valor adequado a cada um deles.
O ato de dar valor, o ato de estabelecer uma hierarquia tem de ser pleno de “desinteresse”, porque se me deixar levar pela atitude “lucrativa”, “utilitarista”, o máximo que conseguirei será olhar para todas as realidades como objetos; tornar-me-ei incapaz de ver as muitas outras possibilidades que se me abririam se as olhasse como âmbitos.
Por quê? porque tendo interesse, o que me moveria seria o afã de dominar a realidade. Não estaria disposto a conhecê-la para respeitá-la e interagir com ela de forma criativa. Olhar para as coisas como simples objetos cria uma distância entre ambos, torna-nos estranhos um ao outro.
O ponto vital da formação do homem é perceber que dominar e possuir são atitudes apenas possíveis com relação a objetos. E que os objetos, tratados dessa forma, nunca chegarão a serem íntimos, sempre permanecerão estranhos, fora de mim, para que possam ser dominados. Por isso, quem tem essa atitude na vida sempre encarará as relações humanas como dilemas, como problemas que devem ser resolvidos de maneira a serem dominados.
A maior parte das relações humanas está baseada em “pares de conceitos contrapostos”: dentro-fora; frio-quente; público-privado; liberdade-obediência; amor-ódio; alegria-tristeza; auto-afirmação-solidariedade… Quem está acostumado a ver a realidade como objeto não consegue atingir um dos pontos mais importantes da educação humana: entender que a atitude criativa transforma esses esquemas em contrastes, em pares de conceitos que se contrapõem, mas que não se excluem entre si, pelo contrário, se complementam.
Uma sinfonia de Beethowen, uma sonata de Chopin, um concerto de Mozart ajudam-nos a entender que as oposições, os altos e os baixos, as diferentes vozes de uma mesma melodia são de vital importância para sair do tom monocórdio e chegar à beleza do sublime. A unidade da harmonia não significa uniformidade, pelo contrário, realça e exige a pluralidade de tons e de vozes. A realidade humana não convive bem com simplificações bipolares –preto ou branco, quente ou frio, objetivo ou subjetivo, moderno ou antigo (ou, por dizer algo mais atual, Vila Clementino e Guarulhos). O ser humano sente-se à vontade na multiplicidade complexa do real.
Um bom livro de literatura não se limita apenas a contar alguns fatos. A “Antígona” de Sófocles não narra apenas a história de uma jovem grega que, por enterrar o seu irmão, teve de enfrentar um tirano e morrer. Se assim fosse, não seria uma obra clássica. A obra de Sófocles mostra com maestria o enfrentamento de dois âmbitos da vida: o âmbito da justiça e o âmbito da lei. E esses âmbitos fazem parte da vida de qualquer homem; fazem parte da nossa vida atual e podem entrar em choque na nossa vida a qualquer momento.
Um quadro ou uma escultura ajuda-nos a educar nosso olhar para que não nos detenhamos apenas no aspecto objetivo dos seres; ensina-nos a olhar para a realidade captando o seu aspecto ambital. A “Pietá” de Michelângelo não é apenas um homem morto nos braços de uma mulher. Há uma infinidade de significados que se entrelaçam nessa obra: o amor de Deus pela Humanidade, a aceitação de Maria do sacrifício do seu Filho, o amor de Maria por nós, a devoção dos fiéis, o mistério do pecado, a necessidade do perdão… O famoso quadro “Guernica” de Picasso não é apenas uma cena confusa com uma lâmpada acesa e um touro em atitude esquisita. Mostra realidades relacionais que sempre estarão presentes em tempos de guerra: o desespero, a angústia, o caos, a força raivosa impotente, o horror… e tudo feito às claras, conscientemente, deliberadamente, não por fraqueza.
A experiência estética –realizável apenas dentro de uma Universidade que se orgulhe de ter um bom curso de Humanidades- ajuda-nos a ver a realidade humana como âmbitos, não como objetos; como lugares de encontro, não como de domínio e posse; como contrastes, não como oposição.
Uma meta importante para a educação seria perceber que o afã de domínio impede-nos ser criativos, torna-nos incapazes de ter experiências estéticas, obriga-nos a viver de forma bipolar (ou isto ou aquilo) e impede-nos de ver os matizes e as possibilidades múltiplas da realidade. Poderemos ter mais posses, mais capacidade de organização e de poder, mais influências, mais bens para desfrutar; porém, iremos afastando-nos cada vez mais do desenvolvimento e do aperfeiçoamento pessoal. Iremos, cada vez mais e ineludivelmente, desumanizando-nos.
Talvez já tenham lido a obra de J.D. Salinger, O apanhador no campo de centeio, (se não leram, leiam ainda neste semestre), onde a personagem central, Holden Caulfield tem um sonho em que vê um monte de meninos alegres e despreocupados brincando num campo de centeio. Ele os olha desde um outeiro e percebe que os garotos não estão enxergando que no fim do campo há um abismo, por onde, sem dar-se conta, vão caindo. Dois capítulos depois, Holden vai à casa do Prof. Antolini e depois de algumas frases intranscendentes, o professor lhe diz que tem a impressão de que o Holden está caindo por um abismo cuja queda é especial. É do tipo horrível, porque a gente cai, cai e não percebe nem sente nada. Não nos damos conta que estamos caindo, mas estamos. É o tipo de queda –diz o professor- que só acontece com aqueles que procuram alguma coisa que o seu próprio meio não pode lhes proporcionar e abandonam a busca. Abandonam-na antes mesmo de começá-la.
A conversa fica a cada minuto mais pesada e desesperadora, e o professor, preocupado com o futuro do aluno, acaba por dar-lhe um conselho: “você vai descobrir (na Universidade e desde que a Universidade o facilitar, digo eu, não o Prof. Antolini) que não é a primeira pessoa a ficar confusa e assustada, e até enjoada, pelo comportamento humano. Você não está de maneira nenhuma sozinho nesse terreno, e se sentirá estimulado e entusiasmado quando souber disso. Muitos homens, muitos mesmo, enfrentaram os mesmos problemas morais e espirituais que você está enfrentando agora. Felizmente, alguns deles guardaram um registro de seus problemas. Você aprenderá com eles, se quiser. Da mesma forma que, algum dia, se você tiver alguma coisa a oferecer, alguém irá aprender alguma coisa de você. É um belo arranjo recíproco. E não é instrução. É história. É poesia”.
É isso que as Humanidades podem proporcionar. Aliás, é isso que só as Humanidades podem proporcionar. Ficar enjoados com o comportamento humano quando é execrável. Ficar revoltados com o comportamento humano quando é injusto. Ficar enjoados, ficar revoltados e confusos e assustados e, ao mesmo tempo, saber que muitos outros homens já se sentiram assim, enjoados como nós, tristes como nós, assustados como nós. Mas é desse sentimento e dessa certeza que brota a força e a coragem para ir além, para tomar as decisões, para dar o passo e, como Hamlet, colocar o mundo nos seus eixos ou, como o Quixote, enfrentar os moinhos que seja preciso enfrentar. Saber que não estamos sós, que nunca estivemos sós, que o nosso gesto, o nosso choro de impotência, as nossas lágrimas mal engolidas perante a chacota e a humilhação injustas terão um significado eterno porque serão história e poesia é o que nos impulsiona a viver. A viver e a agir. A ser ou não ser. E isso nunca será entendido pelas áreas científicas. E, mais, quase sempre será temido.
Por que lemos? Perguntava-se C.S.Lewis muitas vezes. Resposta: para saber que não estamos sós. Para aprender a construir prédios, para saber sobre cálculos e alíquotas, para fazer tabelas e gráficos temos muitos cursos e disciplinas, contudo para saber como ser humanos e não cair sozinhos no abismo da desumanização só podemos aprender com o que os outros seres humanos –aqueles que foram os mais humanos dos humanos- nos deixaram na arte, nas letras, na música, na história ou na filosofia.

4. Um olhar sobre o futuro
Não é de agora que uma das mais fortes críticas contra a Modernidade é de não ter sabido lidar com os sentimentos. Há algo de estranho e terrível quando decidimos levar ao pé da letra a afirmação de que o homem é um ser racional. Mais estranho e mais terrível quando reduzimos as decisões importantes da vida apenas ao racional. O século XX talvez tenha sido o século do triunfo do racionalismo. Um racionalismo que planejou sistematicamente o holocausto, as deportações em massa, os atentados terroristas, o terrorismo de Estado, a guerra bacteriológica, os bombardeios cirurgicamente limpos…
A Universidade também tem sofrido o apelo e a sedução do racionalismo. É por isso que frente a um modelo que poderíamos denominar de “humanista” – a Universidade teria como missão despertar interesses, aperfeiçoar aptidões e habilidades, facilitar o contato e as relações humanas entre alunos e professores – encontramos hoje um modelo “técnico” ou “racionalista”, onde a Universidade teria como missão passar conteúdos, informações, agregar conhecimento e erudição.
Num modelo humanista – que já se perdeu e que me parece que poderemos construir a partir do nosso campus- o importante seriam os procedimentos, o como conhecer e não apenas o que conhecer. Num modelo racionalista, o que se pretende é construir uma grade sistemática e coerente, com uma boa lista de presença e uma extensa lista bibliográfica. O que interessa é quantidade, não qualidade.
Ambos os modelos apresentam problemas e desafios. Diante de um conhecimento cada vez mais especializado e fragmentado, se estivermos dentro de um modelo racionalista, tenderemos a ver a realidade como fragmentada e contentar-nos-emos com acumular conhecimentos e conteúdos.
Diante da questão das relações humanas, das habilidades e dos procedimentos, num mundo fragmentado e relativizado, perguntar-nos-emos: quais habilidades e quais procedimentos e –mais- como e quando, e nos encontraremos com um número tão grande de respostas, que não saberemos por onde começar. Tendemos a teorizar sobre os hábitos e as habilidades, quando eles são práticos e dependerão, portanto, de quem são os professores e quem são os alunos, e poderemos descuidar os conteúdos, quando, na verdade, eles são também  a base da formação, porque é sobre eles que se constróem os hábitos do ensino e da aprendizagem.
Penso que a solução desta aparente contradição só poderá ser resolvida se o curso de Humanas for realmente implementado, se a história, a filosofia, as letras e as artes forem encaradas como o que são verdadeiramente: saberes desinteressados, sem nenhuma finalidade prática ou lucrativa, sem pretender focar ou dominar o seu objeto, mas apenas relacionar-se com ele de uma forma sempre aberta. Não há uma palavra final no campo das Humanidades. Não há uma verdade absoluta. Não há uma única interpretação que seja capaz de dar o sentido das coisas, o único sentido. O conhecimento nas Humanidades deveria ser sempre um conhecimento aberto.
Como fazer isso? Na sua obra “A abolição do homem”, C.S.Lewis critica dois autores de um livro de texto sobre questões de linguagem. Nessa crítica, parece-me que aponta para o problema atual da Universidade: estamos tão mergulhados na objetividade e na racionalidade, que não sabemos mais o que fazer com a subjetividade e os sentimentos. Lewis critica a seguinte afirmação desse livro de gramática inglesa: “Quando o homem diz “Isto é sublime”, parece estar fazendo um comentário sobre as cachoeiras; porém, de fato, está fazendo um comentário sobre seus próprios sentimentos. O que realmente diz é: Tenho sentimentos associados na minha mente com a palavra “sublime”; ou, abreviadamente: “Tenho sentimentos sublimes”. A palavra em questão era “sublime”  aplicada às cachoeiras de Niágara.
Lewis afirmava que esse tipo de raciocínio é que foi socavando os alicerces de um modelo humanista de Universidade e construindo um modelo tecnicista. Hoje, ainda hoje, em geral, quando nos encontramos no mundo acadêmico, percebemos que há uma desqualificação “objetiva” de tudo o que seja “subjetivo”, de maneira que, na prática, defrontamo-nos com dois dogmas academicistas: a) que todos os juízos de valor fazem referência apenas ao estado emocional do sujeito; e b) que esses juízos não têm nenhum valor, precisamente por serem subjetivos.
O avanço da técnica, o conhecimento prático e um forte “senso de realidade” faz-nos pensar que tudo o que se relacione com a Estética, com a Beleza e com a Arte não passa de palavras bonitas, sem nenhum valor além do próprio valor de “palavras bonitas”.
A idéia básica deste tipo de atitude perante as Humanidades é: qualquer tipo de sentimento é suspeito, e mais ainda se esse tipo de sentimento for despertado por uma emoção artística ou por uma associação de idéias perante uma obra de arte.
O homem objetivo, realista e prático, a quinta-essência do modelo de bom intelectual criado na Universidade brasileira, considera totalmente irracional e, portanto, sem sentido qualquer tipo de consideração artística, pelo simples motivo de que essas considerações são de ordem subjetiva e, portanto, não dizem respeito a fatos, mas a juízos de valor.
A base desta atitude é um posicionamento contrário a tudo aquilo que possa parecer sentimental. Pensa-se que o sentimento interfere de tal forma no racional que impede enxergar como as coisas são, que dificultam -quando não o tornam impossível- o acesso à verdade.
Não pretendo aqui entrar na discussão da possibilidade do acesso à verdade. Quero restringir o meu discurso ao que considero a questão primordial deste momento histórico que estamos vivendo: o que fazer com os sentimentos? Como uma Universidade pode me exigir para ter um relacionamento frio, distanciado e neutro com as questões mais vitais da minha existência e da minha sociedade, que são precisamente as que são estudadas num curso de Humanidades?
Sempre foi uma resposta fácil, quando não se sabe lidar com um assunto, sugerir o seu esquecimento ou eliminação. Acredito que a proposta de uma Universidade técnica e racionalista optou por querer erradicar os sentimentos, sufocá-los ou reprimi-los a qualquer custo. Contudo, um curso de Humanas nos permitiria ter os sentimentos adequados nas circunstâncias e perante os objetos adequados. Quem lê “O apanhador no campo de centeio” fica angustiado ao perguntar-se, junto com Holden, por que os patos sabem sempre aonde ir no inverno e eu estou aqui perdido sem saber aonde ir; quem lê “Hamlet” aprende a horrorizar-se com um mundo político falso, traiçoeiro e maquiavélico; quem escuta a Nona Sinfonia de Beethowen, dificilmente conseguirá não emocionar-se. Isto é apenas subjetivo? É apenas objetivo? É um falso dilema. As Humanidades nos mostram que, no seu seio e no seu meio, não existem separações, divisões ou abismos. Existem contrastes, existem diferenças, existem nuances e existem complexidades, tal como no homem. Mas tudo isso existe de forma integrada, da mesma maneira que os contrastes, as diferenças, as nuances e as complexidades existem dentro da mesma e única pessoa. Como já disse Aristóteles, tanto o medo, como a confiança, o apetite, a ira, a compaixão ou prazer e a dor podem ser sentidos em graus muito diferentes, mas “senti-los na ocasião apropriada, com referência aos objetos apropriados, para com as pessoas apropriadas, pelo motivo e da maneira conveniente, nisso consistem o meio-termo e a excelência característica da virtude”.
A realidade é de tal forma que certas reações emocionais podem ser congruentes ou incongruentes, adequadas ou não aos conteúdos da realidade. A Natureza é de tal ordem, configura-se de tal maneira que determinadas respostas, determinados sentimentos são mais “ajustados”, “apropriados”, “adequados” do que outros. Quando alguém afirma que uma cachoeira é sublime, não está querendo descrever apenas os sentimentos que lhe são despertados; está afirmando também que aquela cachoeira era tal que merecia aqueles sentimentos. Quando alguém fica sabendo o que o tio e a mãe de Hamlet fizeram não está simplesmente externando um sentimento de horror, está querendo dizer que aquele ato é horroroso. Quando alguém se vê diante do quadro de Guernica não pode ficar indiferente ao que acontece na Palestina ou no Iraque. Quando alguém lê O idiota de Dostoievski não fica apenas num sentimentalismo vazio, mas percebe o verdadeiro vazio de uma existência humana aburguesada, fútil e hipócrita. As Humanidades ensinam-nos algo que nenhuma outra disciplina nos ensina, e que o Prof. Antolini dá como último conselho a Holden: “Você começará a conhecer as suas medidas exatas, e vestirá a sua mente de acordo com elas”. É disso que se trata: encontrar as nossas medidas. Cada um as suas. Cada um de nós, que entra na Universidade cheio de sonho, de paixão e de entusiasmo não pode ser engessado pelo sistema educativo, tem de encontrar o espaço de liberdade necessário para encontrar as próprias medidas. Isso só é possível no encontro com as Humanidades. Dito com outras palavras, de C. S. Lewis: “Será que se pode ser justo quando não se apreciam as coisas tal como elas merecem? Todas as coisas foram criadas para serem tuas, mas tu foste criado para apreciá-las conforme o seu valor”.
Há um tipo de pessoas absolutamente fechado a qualquer valor. Pessoas que são defeituosas, algo assim como cegas ou surdas, embora não queiram reconhecê-lo e encontrem teorias muito sofisticadas para justificar-se. São pessoas, no entender de Aristóteles, com as quais não adianta conversar ou argumentar sobre certos valores; simplesmente não enxergam. São aqueles que não entendem, por exemplo, que as crianças são lindas e os velhos são dignos de respeito; que não percebem que essas afirmações não manifestam apenas um fato psicológico sobre nossos sentimentos, mas são o reconhecimento de qualidades que exigem de nós próprios uma resposta adequada. São surdos-cegos emocionais.
Há um valor nas coisas que exige de nós uma resposta; que nos interpela. E nossas respostas emocionais podem ser de dois tipos, conforme explica Lewis na sua obra: racionais, quando nos agrada o que nos deve agradar e nos desagrada o que nos deve desagradar; e irracionais, quando percebemos que nos deveria agradar, mas não sentimos nenhum agrado.
Temos de ter presente que nenhum sentimento é, em si próprio, um juízo. Neste sentido, nenhuma emoção ou sentimento tem lógica. O que tem é uma adequação à razão ou não. O homem que não dá valor à Arte; o homem que rejeita qualquer juízo de valor, qualquer sentimento, qualquer emoção pelo fato de que não são nada de objetivo, está partindo do princípio errado de que todo e qualquer sentimento, por definição, é irracional.
“A finalidade da educação humana deve ser inculcar no homem aquelas respostas que são, em si próprias, adequadas perante a realidade. É a isto que tradicionalmente se chamou de educação. Quando não se acredita nisto, a única maneira de educar para viver em sociedade é condicionando os tipos de respostas (chegando a um acordo consensual, no estilo do “Politicamente Correto”, digo eu, não Lewis), pois caso contrário poderá se chegar facilmente ao estágio atual onde não se acredita em nenhum valor e onde as respostas emocionais são imprevisíveis”.
O tipo de homem manufacturado pela técnica -o homem prático- é um homem sem coração. Um homem que se refugia numa falsa objetividade e num compromisso com a verdade que, de maneira alguma são convincentes. A vida não é isso. O sentimento não é isso. As coisas não são isso aí que os homens práticos querem.
Homens práticos, cidadãos da Cidade Irreal, que nos fala T.S. Elliot, em A Terra Devastada (1922):
“Sob o nevoeiro pardo de um amanhecer de Inverno,
uma multidão fluía pela London Bridge, eram tantos,
eu não pensava que a morte tivesse aniquilado tantos.
Suspiros, curtos e raros, eram exalados,
E cada um fixava os olhos adiante dos pés”.

Não sei o que será que acabaremos construindo neste campus. Só espero que não se possa dizer de nós que somos uma multidão que flui nessa encosta do Caminho Velho, todos mortos, e olhando cada um para os próprios pés. Só espero que não seja preciso que nos digam –os que venham depois, quando olhem para nós- as mesmas palavras de Elliot:
“Esta noite meus nervos estão mal. Sim, mal. Fica comigo.
Fala comigo. Por que é que nunca falas? Fala.
Em que estás a pensar? A pensar o quê? O quê?
Nunca sei o que estás a pensar. Pensa”
“Penso que estamos no beco das ratazanas
Onde os homens mortos perderam os seus ossos.
“Que barulho é esse?”
O vento debaixo da porta.
“Que barulho é esse agora? Que está a fazer o vento?”
Nada outra vez nada.
“Tu
Não sabes nada? Não vês nada? Não te lembras de
“Nada”?
[....]
“Tu estás vivo, ou não? Não há nada na tua cabeça?”

São Paulo, 3-08-08
(Texto apresentado no II Congresso SOFIA, organizado pelos estudantes do curso de graduação de Filosofia da UNIFESP-Campus Guarulhos)


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