Introdução
O objetivo deste trabalho é propor uma outra interpretação para a obra de Cervantes, procurando ver nela uma crítica não ao mundo da cavalaria, já perdido com a irrupção da Modernidade, nem uma ironia contra aqueles que se deixariam levar pelo sonho em detrimento da racionalidade, mas uma crítica ao próprio projeto da Modernidade; um projeto que, no seu afã de racionalidade, acabaria por defender a construção de uma sociedade futura e perfeita.
Parece-me significativo o fato de que tenha sido a Modernidade quem introduziu a idéia de “utopia” como algo realizável de fato, a partir do pensamento de que o homem, sendo o sujeito da História, passaria a ser responsável pela construção da sociedade em que tinha de viver. Eliminava-se, com isso, a idéia de contingência, tão cara à filosofia grega, a partir da qual permanecia o convencimento de que sempre haveria, na realidade histórica, um elemento de imprevisão, algo que não podia, nem cabia ser controlado pelo homem e a sua razão. Essa premissa partiria da idéia de “projeto social”, querendo significar o fato de que os cidadãos poderiam, num determinado momento, planejar e convencionar um pacto social, por meio do qual todas as injustiças, corrupções, desordens, em fim, para usar uma expressão tipicamente quixotesca, “todos os entuertos” do mundo poderiam ser sanados, por meio de uma nova ordem racional, elaborada a partir da vontade livre dos cidadãos.
Não quero dizer com isto que, antes da Modernidade não tenha havido “utopias”. Basta lembrar a República de Platão, a própria Utopia de Thomas More ou A Cidade do Sol de Campanella. Quero dizer que, com a Modernidade, a “utopia” de uma sociedade perfeita passou a ser uma meta realizável concretamente, na qual todas as forças da sociedade passariam a ser empregadas.
É contra essa Modernidade e contra esse tipo de reformadores sociais que Miguel de Cervantes lança o seu livro e cria o arquétipo do eterno inconformado com a sociedade em que vive. As coisas não poderiam continuar do jeito que estavam, pensava Dom Quixote. A injustiça, a ociosidade, a corrupção, a mentira e a maldade não deveriam continuar prevalecendo nas relações sociais. Era necessário mudar tudo isso, a partir de um modelo que resolvesse definitivamente as injustiças do mundo. Era preciso que um Quixote alterasse as estruturas e as condições injustas da sociedade.
O Projeto reformador da Modernidade
Durante os séculos XVI e XVII, como desenvolvimento das premissas humanistas do Renascimento, vai-se configurando o Projeto modernista que, de forma simplificada e para efeitos deste trabalho, poderíamos caracterizar com dois elementos: o primeiro seria a idéia de ruptura com a tradição anterior, mais especificamente com a medieval, entendida como uma época religiosa e acientífica. O segundo seria a idéia de uma natureza humana auto-suficiente. Idéia que será uma das questões mais debatidas ao longo de todo o século XVII: se, por um lado, vemos os racionalistas que trabalham com o conceito de “natureza racional”, a partir do qual o homem é visto como alguém que, por natureza, é pleno e capaz de todas as possibilidades humanas –bastando ser educado para isso e desenvolver plenamente a sua razão-, por outro, temos Pascal, para quem o homem é um ser carente, necessitado da graça divina e extremamente contingente; um ser que pode ser capaz de realizar grandes tarefas e, concomitantemente, pode praticar extremas vilanias. Bastaria um segundo, uma ocasião – o aparecimento da contingência – para que toda a grandeza humana fosse sufocada na própria miséria do homem.
Irá surgindo assim um projeto de reforma moral da sociedade baseado em normas, princípios e abstrações conceituais (felicidade, liberdade, igualdade, justiça,bem, mal…) que seriam selecionados e entendidos como ideais morais ou “valores”, que se converteriam, com a coação do Estado moderno, recém-criado, num “cânone autorizado que depois se transformaria num guia para a legislação(…) estabelecendo-se, assim, uma ideologia moral porque esse parece ser o único procedimento para obter a estabilidade necessária na sociedade”.
De certa forma, e isto é de extrema importância para entender o trabalho aqui apresentado, a vida –especificamente a vida moral, ou seja a minha vida enquanto opções que posso realizar para praticar atos bons ou maus, certos ou errados, justos ou injustos- é vista a partir da aplicação reflexiva (deduzida) de um conceito, de uma categoria ou de um critério que determinam previamente (antes da realização da ação) o que deve ou não ser feito. Simplificando de certa forma, essa moralidade, própria do Projeto modernista, entende que a sociedade poderá ser perfeita desde que todos os homens, já que são racionais, observem, por reflexão racional, as regras morais.
O que estou tentando explicar aqui é que o Projeto da Modernidade fez uma escolha deliberada contra a tradição (daí a inevitável atração pela idéia de “ruptura”) e em favor de uma idéia de sociedade perfeita, que teria por base o conceito de uma natureza humana auto-suficiente. E Cervantes, assim como Shakespeare e os outros grandes pensadores do XVII perceberam essa escolha e “profetizaram” sobre as suas consequências.
Esse movimento de reforma moral da sociedade pode ser identificado no mundo ibérico do século XVII. Por um lado, encontra-se, nos começos do século, uma certa tendência à generalização das leis, procurando formulá-las da maneira mais geral e abstrata possível. Assim, Bermúdez de Pedraza, jurista dos começos do XVII, autor da Arte legal para estudiar la jurisprudencia, publicada em Salamanca em 1612, defendia a tese de que era preciso, para chegar à solução justa, descer do muito geral para o particular “e que as regras universais tinham maior utilidade do que as singulares”. Da mesma forma, para Lope de Deza, jurista na época de Filipe III e autor de “Juicio sobre las leyes civiles”, o legislador não deveria preocupar-se dos casos particulares, nem dos atuais, “mas dos universais e futuros”.
De certa forma, esse movimento, na Espanha do XVII, era minoritário e não se tornaria predominate até bem entrado o século XVIII, já com os Bourbons. Os seus próprios defensores não tinham muita certeza sobre a sua eficácia e fundamentos. Como indica Tau Anzoátegui, “o próprio Deza reconhecia limitações às suas idéias. Pensava que o ideal de governar com leis gerais e poucas era difícil de ser alcançado, pois seria necessária uma sabedoria humana excepcional. Além disso, considerava como impossível que uma regra geral elaborada sobre casos comuns pudesse ser abrangente para todos os casos que acontecessem no futuro”. De qualquer forma, o que aparecia como novidade era precisamente a proposta e o projeto de que a legislação fosse transformada em um todo orgânico e sistemático, composto de normas gerais, universais e abstratas, abrangentes de todas as condutas possíveis, que seriam deduzidas desses princípios gerais.
Por outro lado, havia um grande número de juristas, teólogos e moralistas que consideravam a necessidade de ater-se às circunstâncias do caso, dentro da linha aristotélica expressada na sua Ética a Nicômaco, de maneira que se tornava impossível pensar em qualquer tipo de abstração, desligada da realidade cirunstanciada, ou definição prévia da conduta certa. Nesse sentido, é ilustrativa a opinião do jurista Jerónimo Castillo de Bobadilla, na sua obra Política para corregidores y señores de vasallos em tiempos de paz y de guerra, escrita em 1597, onde se pode encontrar uma referência explícita à necessidade de olhar com atenção às circunstâncias e dispor de regras flexíveis, tal como Aristóteles pedia: “E como todos os fatos dos homens não se podem medir por uma regra de ferro, que não se pode entortar, conforme dizem o Filósofo e Egídio Romano, e isto por razão das circunstâncias e das mudanças, que são muitas e sem medida, que há nos fatos, por isso não podem ser regidos por uma lei reta e igual, como se fosse uma regra (régua) de ferro, que sempre está direita. E da mesma forma que não convém um molde igual para todos os pés, a não ser que todos sejam iguais de tamanho e largura, por outro lado, convém que os negócios sejam regulados pela regra (régua) de Lesbos, de chumbo, porque pode adaptar-se e aplicar-se às circunstâncias dos atos…”.
Parece-me que esses exemplos são suficientes para entender o embate que, no mundo ibérico, estava sendo travado entre essas duas correntes de pensamento e que, como afirma Richard Morse, tiveram sorte diferente e tempos distintos para tornar-se predominantes na sociedade anglo-saxônica e na sociedade hispânica.
Cervantes cria na figura do Quixote um reformador da sociedade que, quando insiste em implantar o seu modelo, torna-se louco e insensato, mas quando se dedica simples e boamente a viver a vida tal como lhe aparece, torna-se uma das personagens mais encantadoras e sensatas do romance.
O Quixote, profeta de um novo tempo
Tende-se a olhar para a obra de Cervantes como uma tentativa ou forma de encerrar definitivamente o tempo passado, aquele dos “cavaleiros andantes”, ou, então, como uma crítica ou sátira contra todos aqueles que, no tempo presente, petendessem reviver um passado que nem sequer existiu ou, ainda, como uma análise sobre o eterno enfrentamento nas sociedades humanas entre sonho e realidade.
Contudo, parece-me que o Quixote de Cervantes é uma forma profética de anunciar os novos tempos que se aproximam. Novos tempos marcados pela pretensão racionalista de poder construir uma sociedade perfeita e justa a partir de certos princípios racionais, verdadeiros e universais. O Quixote não é louco porque quer reviver um passado glorioso; é louco porque quer construir um futuro perfeito. Louco, porque como diria Chesterton, na sua obra “Ortodoxia”, perdeu tudo menos a razão.
Logo no primeiro capítulo, Cervantes avisa ao leitor que vai falar de alguém que se enfrascou tanto nas leituras “que passava as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro, e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro, de maneira que chegou a perder o juízo”. E a sua loucura consistiu em “fazer-se cavaleiro andante, e ir-se por todo o mundo, com as suas armas e cavalo, à cata de aventuras, e exercitar-se em tudo em que tinha lido se exercitavam os da andante cavalaria, desfazendo todo gênero de agravos, e pondo-se em ocasiões e perigos, donde, levando-ao a cabo, cobrasse perpétuo nome e fama”.
Na minha opinião, o que Cervantes está querendo-nos dizer é para tomar cuidado com esses reformadores modernos, construtores de uma “utopia social”, onde a virtude, a justiça, a igualdade e todos os outros valores –afinal, valores de cavaleiros andantes- se imponham a partir de uma definição prévia, categórica e conceitual, tal como fazia o Quixote, a partir do seu modelo cavaleiresco, para quem, como ele próprio dizia, existiam vários caminhos e formas de viver na sociedade (o da ambição, o da adulação, o da hipocrisia, até o da verdadeira religião…) mas ele escolhera “o estreito caminho da cavalaria andante, por cujo exercício desprezo a fazenda, mas não a honra. Tenho satisfeito agravos, castigado insolências, vencido gigantes e atropelado vampiros: sou enamorado, só porque é forçoso que o sejam os cavaleiros andantes e, sendo-o, não pertenço ao número dos viciosos, mas sim ao dos platônicos e continentes. As minhas intenções sempre as dirijo para bons fins, que são fazer bem a todos e mal a ninguém”.
Voltando a Oakeshott, a desgraça atual, que percebemos existencialmente na nossa sociedade, baseia-se na pretensão racional de construir uma moralidade “científica”, apoiada no consenso e na imposição de ideais abstratos e não na praxe e na vivência circunstanciada, caso a caso, das virtudes concretas, que sempre podem ser realizadas e exercidas de formas múltiplas e diferentes. E, inclusive, por força da contingência das circunstâncias, mesmo que bem intencionadas, podem dar errado ou, até, podem não ser sequer realizadas.
No capítulo XXI da Primeira Parte, onde se narra a aventura do Elmo de Mambrino, o Quixote deixa ver como seria uma sociedade construída a partir de um modelo social perfeito. Tudo –ou seja, as decisões, as condutas, as escolhas- já estaria previamente previsto, de acordo com uma apurada “engenharia social” que levaria, necessariamente, todos os membros da sociedade à sua perfeição: “…e assim que vir o cavaleiro, [o rei] conhecendo-o pelas armas ou pela empresa do escudo, forçosamente há de dizer: “Eia! Sus! Saiam meus cavaleiros, quantos em minha corte são, a receber a flor da cavalaria que ali vem”; à qual ordem sairão todos, e ele descerá meia escada (…) e o levará pela mão ao aposento da senhora rainha, onde o cavaleiro a achará com a infanta sua filha, que há de ser uma das mais formosas e completas donzelas (…). Sucederá logo após tudo isso pôr ela os olhos no cavaleiro, e ele nela os seus, e cada um parecerá ao outro coisa mais divina que humana; e sem saberem como nem como não, hão de ficar presos na insolúvel rede amorosa, e com grande opressão de suas almas, por não saberem como se hão de falar e descobrir as suas ânsias e sentimentos…”.
Tudo se encontra elaborado com uma perfeição matemática ou, se quisermos, geométrica. As coisas devem acontecer assim, porque assim é que foi previsto. O Quixote é um cavaleiro andante, e a dama do castelo, uma princesa. A partir dessas premissas, tudo o mais é consequência. O mundo tornou-se uma idéia. A realidade é recriada conforme os conceitos de “cavaleiro”e “dama” ou, se quisermos, conforme os conceitos de “esquerda” e “direita”, “progressista”e “conservador”, “explorador” e “explorado”. O Projeto da Modernidade é um projeto de futuro, revestido no poder mágico da “utopia”, baseado nos princípios da racionalidade e que nos prometeu a felicidade futura numa sociedade perfeita, mesmo que para isso seja necessário, como advertia Ítalo Calvino, constranger a realidade e fazê-la entrar nos moldes do modelo. Palomar, a personagem criada por Calvino, “precisava conseguir ter presente por um lado a realidade informe e demente da convivência humana, que só gera monstruosidades e desastres, e por outro lado um modelo de organismo social perfeito, desenhado com linhas nitidamente traçadas, retas e círculos e elipses, paralelogramos de forças, diagramas com abscissas e ordenadas (…) O modelo é por definição aquele em que não há nada a modificar, aquele que funciona com perfeição; ao passo que a realidade, vemos bem que ela não funciona e que se esfrangalha por todos os lados; portanto, resta apenas obrigá-la a adquirir a forma do modelo, por bem ou por mal”.
A vida a partir dos princípios da razão
O começo da II Parte do Quixote parece-me ser ilustrativo do projeto da Modernidade: construir uma sociedade o mais perfeita possível por meio de uma ordenação racional da vida.
No Prólogo, Cervantes narra o conto de um louco, cuja loucura consistia numa simples questão de palavras e uso de conceitos. Bastava, para o louco, mudar o conceito que a realidade –no caso, uma determinada raça de cachorro- também mudava: “Havia em Córdoba outro doido, que tinha por costume trazer à cabeça um pedaço de mármore ou um pedregulho não muito ligeiro e, em topando algum cão descuidado, aproximava-se e deixava cair o peso em cima dele (…) Sucedeu, pois, que entre os cães a que fez isto, foi um deles o cão de um chapeleiro, que o estimava muito. Atirou-lhe uma pedra, deu-lhe na cabeça, desatou a ganir o cão moído, viu-o e sentiu-o o dono; agarrou numa vara de medição, veio ter com o doido, e não lhe deixou uma costela sã, e a cada paulada que lhe dava, dizia:
- Ah! Ladrão! Ah! Perro! Pois não viste, cruel, que o meu cão era podengo?
E, repetindo-lhe o nome de “podengo”muitas vezes, largou o louco, depois de lhe ter posto os ossos num feixe. Escarmentou-se e retirou-se o doido, e em mais de um mês não saiu à praça; e ao cabo desse tempo voltou com a mesma invenção e com maior carga. Chegava-se aos cães, olhava fito para eles por muito tempo, e sem querer nem se atrever a descarregar a pedra, dizia:
- Este é podengo! Cautela!
E efetivamente, quantos cães topava, ainda que fossem alões ou gozos, dizia que eram podengos; e nunca mais disparou o pedregulho”.
A Modernidade, seguindo a trilha cartesiana, construiu um projeto e um modelo de sociedade, difundido e propagado posteriormente pelo Iluminismo, cuja principal armadilha consistiu em hipostasiar os conceitos, criar, a partir de categorias mentais existentes apenas enquanto “constructos” ou “objetos” da mente, em realidades físicas que, embora inexistentes, carregavam a força e o sonho da utopia moderna. Dessa forma, a Modernidade garantiu aos membros da sociedade que seria possível construir um mundo melhor e completamente diferente do mundo oferecido pela sociedade tradicional. Um mundo, como o protagonizado pelos Houyhnhnms, de Jonatham Swift, onde “as controvérsias, porfias, disputas e obstinações são males desconhecidos (…) A amizade e a benevolência são as [suas] duas virtudes principais, não limitadas a alguns objetos, mas universais em relação a toda a raça (…) Conservam a decência e a civilidade no seu mais alto grau (…) O cuidado com que educam os filhos procede apenas dos ditames da razão (…) [onde] a natureza os ensina a amar a espécie toda (…)”.
Por outras palavras, a Modernidade garantiria, no futuro, um mundo pleno e feliz, onde apenas aqueles que não se deixassem instruir pela razão acabariam sendo forçados a isso pela coação do Estado, nova personagem no mundo da política, que vinha com a missão de dar provimento e facilitar os meios para que o projeto se tornasse vitorioso. Ou por outras palavras, voltando a Gulliver, para entendermos bem o que estou querendo dizer ao falar em “hipostasiar os conceitos”: um mundo onde se ensinariam “os primeiros princípios da honra, da justiça, da verdade, da temperança, do espírito público, da fortaleza, da castidade, da amizade, da benevolência e da fidelidade”.
Não é outro o Projeto de Dom Quixote. No capítulo I da Segunda Parte, depois de mais uma história sobre um outro louco, desta vez de Sevilla, contada pelo barbeiro, o Quixote pronuncia, parece-me que por primeira vez, o seu próprio projeto: “Eu, senhor barbeiro, (…) só me canso para fazer perceber ao mundo o erro em que labora, não renovando os tempos em que a ordem da cavalaria campeava em toda a pompa; mas não é merecedora a nossa depravada idade de gozar tantos bens como o que gozaram os séculos em que os cavaleiros andantes tomaram ao seu cargo e puseram aos ombros a defesa dos reinos, o amparo das donzelas, o socorro dos órfãos e pupilos, o castigo dos soberbos, e o prêmio dos humildes (…) agora já triunfa a preguiça da diligência, o vício da virtude, a ociosidade do trabalho, a arrogância da valentia, e a teoria da prática das armas, que só brilharam e resplandeceram nas idades de ouro e nos cavaleiros andantes…”.
Trata-se, portanto, de uma reforma moral, não apenas das pessoas, mas de toda a sociedade, a partir de um plano prévio, de um modelo perfeito. Perfeito no sentido de acabado, moralmente bom e o único possível. O fato de esse modelo estar centrado na cavalaria em nada muda o seu paralelismo com o Projeto moderno:
- convencer o mundo do erro em que se encontra;
- reformar o mundo com os valores e as virtudes racionais (diríamos, republicanas)
- porque esse modelo é o único possível contra os vícios e os erros que tomaram conta da sociedade atual.
Cervantes serve-se do anacronismo do modelo para criar a perplexidade no leitor –como seria possível melhorar uma sociedade futura com um modelo antigo?- e deixar patente a loucura quixotesca. Mas –poderemos perguntar-nos- se o Quixote é um louco com tamanha pretensão, por que não pensar o mesmo de alguém que defende um Projeto que pretende construir uma nova sociedade a partir de uma visão em que a ciência, o progresso e a tecnologia, num avanço permanente e continuamente progressivo, tornarão os homens mais justos, mais felizes e mais completamente realizados?
A Modernidade e o seu mito de Mambrino
Na verdade, o grande trunfo da Modernidade foi ter podido escrever uma lenda de si própria como se fosse história. Desqualificando o mito como algo do passado “irracional”e “acientífico”, construiu uma profecia de si mesma, à que denominou de “utopia”, catalisando assim todos os sonhos e esforços da sociedade moderna. Uma vez definida qual seria a sociedade à que gostaríamos de chegar (o lugar da liberdade, da igualdade e da fraternidade) bastava apenas que o Estado aplicasse os meios necessários (aquela “razão instrumental” defendida po Weber) para que, num progresso contínuo, mais dia ou menos dias todos pudêssemos desfrutar da felicidade futura. A lógica (as razões necessárias e estruturantes da realidade) construiria a própria vida social, a partir de um consenso (pacto social) entre todos os cidadãos.
Quando Dom Quixote estava realizando seus sacrifícios e penitências em “Sierra Morena” em prol do amor de Dulcinéia, no capítulo XXV da Primeira Parta, explicava a um cético Sancho Panza, como era –como devia ser, posto que nenhum deles a vira antes- a formosa dama de El Toboso:
- “…Segundo isso, baste-me a mim também pensar e crer que a boa da Aldonça Lourenço é formosa e honesta. Lá a sua linhagem importa pouco; não há de ir tirar-lhe as inquirições para dar-lhe algum hábito; para mim faço de conta que é a mais alta princesa do mundo. Porque hás de saber, Sancho, se não o sabes, que há duas coisas só que mais que todas as outras incitam amar: são a formosura e a boa fama; e amas estas coisas são em Dulcinéia extremadas, porque em lindeza nenhuma a iguala, e em boa nomeada poucas lhe chegam; e, para acabar com isto, imagino eu que tudo que te digo é assim, sem um til de mais nem de menos; pinto-a na fantasia como a desejo, assim nas graças como no respeito…”.
A lógica do Projeto da Modernidade é uma lógica perversa, porque uma vez definidas as suas premissas –o sonho, a utopia- tudo será visto a partir delas. Basta “pensar” como deve ser para que “tudo o que se imagina” seja assim como foi imaginado. E quando isso não acontecer, o problema nunca estará no projeto –que por definição é perfeito, como lembrava Calvino- mas nessa realidade arcaica, complexa e conservadora que se nega a seguir o curso dos acontecimentos, porque, como bem explicava Dom Quixote a Sancho naquelas serras, sempre parecerá para alguns que o sonho e a utopia moderna é um desatino, mas isso será por causa do curto entendimento que essas pessoas, como o coitado do Sancho, têm: “Olha, Sancho, pelo mesmo que tu me juraste há pouco te rejuro eu que tens o mais curto entendimento que nunca teve, nem tem, escudeiro do mundo. Pois é possível que, andando comigo há tanto tempo, ainda não tenhas reconhecido que todas as coisas dos cavaleiros andantes que parecem quimeras, tolices e desatinos, são pelo contrário realidades?”.
Na verdade, a questão central da Modernidade será a mesma colocada pela Filosofia grega: afinal, o que é a realidade? A resposta, apontada já pelo Humanismo renacentista, irá se perfilhando melhor à medida que o racionalismo e o idealismo vão tomando conta da epistemologia. Se o homem se torna senhor e agente da história, o que teremos, na verdade, nunca será a realidade, mas a projeção das nosas estruturas mentais, das nossas representações, dos nossos sonhos –utopias- sobre uma realidade amorfa que passa a conformar-se de acordo com a vontade racional do homem. A verdade, para o Projeto moderno, passaria a ser vista como “um conceito feito para aprisionar as pessoas em crenças e deter sua autonomia”. O homem moderno é o próprio construtor da história, da realidade e, consequentemente, da sua verdade. No assim chamado mundo pós-moderno, encontramo-nos perante um verdadeiro “efeito de Mambrino”:
- “…se não me engano, aí vem caminhando para nós um homem que traz na cabeça o Elmo de Mambrino…
- olhe Vossa Mercê bem o que diz, e melhor o que faz –respondeu Sancho- (…) e talvez desse eu tais razões que Vossa Mercê veria que se enganava no que diz.
- como enganar-me no que digo, traiçoeiro escrupulizador?! –exclamou Dom Quixote- dize-me: não vês aquele cavaleiro que vem para nós sobre um cavalo ruço rodado, e traz na cabeça um elmo de ouro?
- O que eu vejo –respondeu Sancho- não é senão um homem escarranchado num asno pardo, cor do meu, e que traz na cabeça uma coisa que reluz.
- Pois “essa coisa que reluz”é que é o Elmo de Mambrino –respondeu Dom Quixote…”.
Um “efeito de Mambrino” que teima em afirmar que o imaginado, o pensado, e o construído mentalmente é real, e que é capaz de “dar-lhe” vida e existência por meio da elaboração de uma categoria ou conceito, porque “aquela coisa que reluz” tem um nome. E quem nomeia, cria e domina a realidade. Afinal, como o próprio narrador da história do Quixote nos explica, o cavaleiro da Triste Figura “tinha isso para si: quantas coisas via, logo pelo ar as acomodava às suas desvairadas cavalarias e descaminhados sonhos”.
O Projeto da Modernidade, parece dizer-nos Cervantes, tem uma enorme dificuldade de dialogar com a alteridade. É um projeto autista. O reformador utópico moderno já sabe aonde quer chegar e já conhece o caminho a ser percorrido, aliás, o único caminho a ser conhecido (o da cavalaria andante). A partir dessa posição prévia qualquer tentativa de diálogo torna-se bastante precária, senão impossível.
O capítulo XXXI, Parte I permite-nos entender o que estou tentando dizer. Sancho fora levar ao Toboso, terra da “sem par Dulcinéia” a carta que D. Quixote escrevera em Sierra Morena para a sua amada. Como Sancho era um homem prático e via que tudo não passava de uma bobagem, nem se preocupou em entregar a carta. Deu uma olhada em Dulcinéia, comprovou que, de fato, era mesmo uma loucura do seu amo, e voltou disposto a fazer ver a D. Quixote que Dulcinéia não era Dulcinéia, mas simplesmente Aldonza Lorenzo.
Sancho diz que Aldonza não leu a carta porque estava atarefada moendo o trigo…
- Discreta senhora -responde D. Quixote-. Isso deve ser para poder lê-la depois mais devagar e saboreá-la melhor.
Sancho não entende como seu amo pode estar tão cego e dá um sinal contundente: Dulcinéia cheira mal. Pior, tem cheiro de homem, e de homem suado…
- Não é bem assim. Deve ser que você mesmo estava ……, ou então, que você se cheirou a si próprio, porque bem sei eu como cheira aquela rosa entre espinhos, aquele lírio do campo, aquele âmbar precioso.
Mesmo assim, Sancho insiste e diz a D. Quixote que sua amada não lhe deu sequer uma jóia de lembrança; que o único que lhe deu foi um pedaço de queijo e outro de pão. D. Quixote sabe ver a grandeza.
- Generosa é em extremo. E se não te deu uma jóia de ouro, é sem dúvida porque não a tinha à mão… (p. 182).
Dentro do sistema quixotesco –dentro do sistema moderno- não há como convencer o Quixote de que as coisas não são bem como ele as pensa. Sempre haverá uma argumentação racional que explique e justifique a utopia ou, se quisermos, a realidade sonhada. Relembrando Ortega y Gasset, o problema da Modernidade –parece-me- encontra-se na pretensão de querer que o conceito, a categoria, ou a realidade enquanto “constructo ideal” configurem e realizem completamente a realidade existencial: “o conceito não pode ser uma nova coisa sutil destinada a substituir as coisas materiais. A missão do conceito não consiste, portanto, em desalojar a intuição, a impressão real. A razão não pode, não tem que aspirar a substituir a vida”.
Isto não significa que a realidade não possa ser moldada pelo homem, ou que a realidade seja um em si absoluto que não possa ser modificado. Significa, como lembra Ítalo Calvino que, se por um lado, o modelo é aquele que, por definição “funciona com perfeição”, por outro, a realidade “vemos bem que não funciona e que se esfrangalha por todos os lados”, ou, como diria Morpheus para Níobe, no filme Matrix, na realidade, há algumas coisas que mudam e algumas que não mudam. A pretensão moderna é acreditar que o modelo pode transformar toda a realidade, e transformá-la completa e defintivamente, tornando-a perfeita, esquecendo-se, como advertia Ortega y Gasset, que o modelo nunca nos dará “a carne das coisas”. Aldonza Lorenzo poderá modificar-se, mas nunca será a Dulcinéia idealizada.
Um outro Quixote
Talvez o que mais surpreenda no romance de Cervantes –e assim se exprimem muitos dos personagens que conversam e convivem com o Quixote- é que o Cavaleiro da Triste Figura nem sempre se manifesta como “cavaleiro andante”. Há inúmeras passagens, onde suas ponderações, suas intuições e seus conselhos são tão interessantes e prudentes que não se entende bem como alguém tão sensato passe a ter atitudes tão “quixotescas”.
Assim, apenas para citar três exemplos, no capítulo XVIII da Segunda Parte, encontramos Dom Quixote e Sancho conversando com o cavaleiro do verde gabão e com o seu filho, que tem ofício de poeta. Em certa altura da conversa, Dom Quixote, falando sobre concursos literários –e relacionando-os com os concursos nas Universidades, comenta:
“- Procure Vossa Mercê alcançar o segundo prêmio, porque o primeiro sempre o conquistam os empenhos e a posição do concorrente; o segundo, esse dá-o simplesmente a justiça; e o terceiro vem a ser segundo, de forma que o primeiro passa a ser terceiro, como sucede nas universidades com as cartas de licenciado”. Dom Lourenço, o filho do cavaleiro do verde gabão, surpreende-se com a acuidade do conselho e exclama para si próprio que não pode imaginar que o Quixote seja um doido.
No Capítulo III da Segunda Parte, Cervantes descreve uma conversa entre o Quixote, Sancho Panza e o bacharel Carrasco. Este último comenta que já correm por toda Espanha e Portugal mais de doze mil exemplares da famosa Primeira Parte das aventuras de Dom Quixote. Sancho começa a indagar sobre o teor do que está escrito nesses livros e, concretamente sobre pequenos detalhes de situações em que o cavaleiro e o escudeiro não tiveram muita bo fortuna. Diante das explicações do bacharel, pergunta:
“- E a verdade da história?
- Poderiam deixá-las em silêncio por equidade –notou Dom Quixote-, pois as ações que não mudam nem alteram o fundo verdadeiro da história, não há motivo para se escreverem, logo que redundem em menosprezo do protagonista. À fé que não foi tão pio Enéias como Virgílio o pinta, nem tão prudente Ulisses como refere Homero.
- Assim é –redarguiu Sansão-, mas uma coisa é escrever como poeta, e outra como historiador; o poeta pode contar ou cantar as coisas não como foram, mas como deviam ser, e o historiador há de escrevê-las, não como deviam ser, mas como foram, sem acrescentar nem tirar à verdade a mínima coisa.
- (…) Agora digo eu –acudiu Dom Quixote- que não foi um sábio o autor da minha história, mas algum falador ignorante, que, sem ter tento nem juízo, se pôs a escrevê-la, saia o que sair, como fez Orbaneja, o pintor de Úbeda, que, perguntando-se-lhe o que pintava, respondeu: “O que calhar”. E às vezes pintava um galo, de tal feitio e tão pouco parecido, que era necessário escrever-se-lhe ao pé em letras góticas: “isto é um galo”; e assim acontecerá com a minha história, que precisará talvez de comentário para se entender”.
Por último, não deixa de ser curioso o diálogo que Dom Quixote tem, no meio da madrugada, com Dona Rodríguez, a ama da Duquesa que recolhera Dom Quixote e dera a Sancho o governo da sua ilha. Dona Rodríguez procurou o cavaleiro a altas horas da noite, quando todos já dormiam e bateu na porta do seu quarto para “contar-lhe as minhas angústias, como a quem pode remediar todas as aflições do mundo”. Logo a seguir foi procurar um vela e, enquanto isso, Dom Quixote começou a pensar que poderia acontecer algo mais do que uma simples conversa: “quem sabe se com esta soledade, esta ocasião e este silêncio não despertarão os meus desejos, que dormem, fazendo com que no fim da vida venha a cair onde nunca tropecei?”
Pouco depois, começou a dizer para si próprio que esse pensamento era ridículo, porque “não é possível que uma ama gordanchuda, de toucas brancas e de óculos, possa mover nem levantar pensamentos lascivos, nem no mais desalmado peito deste mundo” e, em seguida, chegou Dona Rodríguez com a vela e vendo a Dom Quixote de pé, recuou um pouco perguntando:
“- Estamos seguras, senhor cavaleiro? Não tenho por muito honesto sinal ter-se Vossa Mercê levantado do seu leito.
- Isso mesmo é que eu pergunto, senhora –respondeu Dom Quixote-, e desejo saber se posso ter a certeza de não ser acometido e violentado.
- A quem pedis essa garantia, cavaleiro? Tornou a ama.
- A vós mesma –redarguiu Dom Quixote- porque nem eu sou de mármore, nem vós sois de bronze, e não são dez horas do dia, é meia noite, e talvez mais alguma coisa ainda, ao que imagino, e achamo-nos numa estância mais cerrada e secreta do que devia ser a cova em que o traidor e atrevido Enéias gozou a formosa e piedosa Dido…”.
Estamos diante de uma faceta do Quixote que talvez não estejamos acostumados. O que ficou no imaginário popular é precisamente a figura de um louco, manso mas louco, que se empenha em moldar o mundo de acordo com os padrões de uma moral pautada pela cavalaria andante; alguém que não consegue entrar em diálogo com nenhuma outra personagem do romance porque tudo o que escuta e tudo o que vê, o vê de acordo com seus “desvairados descaminhos”.
Contudo, há momentos em que Cervantes quis mostrar um outro lado da personalidade do homem de La Mancha. Uma personalidade sensata, normal e aberta ao diálogo, por meio da qual o Quixote nos deixa ver suas opiniões sobre poesia, sobre a verdade da história e as suas narrativas e, inclusive, sobre o que poderia acontecer entre um homem e uma mulher, que não são nem de mármore nem de bronze, num dormitório, depois da meia noite. Mas, basta, para o Quixote, tocar a tecla da situação injusta e desorganizada do mundo, para que volte de imediato à sua contínua teimosia. E basta, para o leitor, acompanhar a brusca mudança quixotesca de comportamento para estabelecer uma analogia com o que pode acontecer com a sociedade nas mãos de cavaleiros andantes.
O Quixote, crítico ou profeta da Modernidade?
A crítica tradicional tende a olhar para o cavaleiro de La Mancha como um sonhador romântico que, em busca da justiça e da defesa da liberdade, está disposto a fazer quaisquer sacrifícios. Nesse sentido, o Quixote encarna o mito da Modernidade na medida em que, para implantar a sociedade justa e perfeita, torna-se necessário todos os esforços possíveis e imagináveis em contra de um sistema perverso, que nos esmaga como esses moinhos de vento gigantescos, mas que, um dia, num futuro próximo, a sociedade acordará e verá o sonho realizado.
Nesse sentido, para Mario Vargas Llosa, o Quixote representa o homem do século XXI. Alguém que “está animado por um desígnio enlouquecido: ressuscitar o tempo eclipsado séculosatrás (que, aliás, nunca existiu) dos cavaleiros andantes….Esse ideal é impossível de alcançar porque tudo na realidade em que vive o Quixote o desmente”. Na sua interpretação, a grandeza do Quixote não está propriamente na tentativa de reatualizar o passado, “mas em algo ainda mais ambicioso: realizar o mito, transformar a ficção em história”. E essa ambição realizar-se-ia por uma defesa, até a morte se necessário, da liberdade. Uma liberdade que, para Llosa, “é a mesma que a partir do século XVIII terão na Europa os chamados liberais: a liberdade é a soberania de um indivíduo pra decidir a sua vida sem pressões nem condicionamentos, em exclusiva função da sua inteligência e vontade”.
É por isso que, para Vargas Llosa, o Quixote é um livro moderno, porque sua modernidade está no espírito”rebelde, justiceiro, que leva a personagem a assumir como sua responsabilidade pessoal mudar o mundo para melhor, mesmo quando, ao tentar pô-lo em prática, cometa erros, se espatife contra obstáculos insuperáveis e seja golpeado, vexado e convertido em objeto de riso”. Por tudo isso, por esse caráter utópico e sonhador, no pleno sentido moderno da palavra, Vargas Llosa vê o Quixote como um romance para os tempos atuais, prolongando, portanto, esse projeto salvador da Modernidade para a redenção da Humanidade e a construção de um mundo melhor e mais justo, aliás, um mundo perfeito e justo.
Contudo, parece-me que o que Cervantes pretendia nos dizer com o Cavaleiro da Triste Figura é precisamente o contrário. Adverte-nos para as consequências funestas que pode sofrer a sociedade quando se pretende a construção de um mundo nos moldes modernos e racionais. Para Cervantes, seria uma completa loucura formular um conceito prévio –ser cavaleiro andante- e a partir daí adentrar-se na sociedade –ir pelo mundo desfazendo agravos- para corrigi-la, para mudá-la, para aperfeiçoá-la conforme o que se possa vir a deduzir desse modelo. Estaríamos nas mãos daqueles que “rematados já de todo o juízo, deu no mais estranho pensamento em que nunca jamais caiu louco algum do mundo”.
(Texto publicado na Revista Tempo Brasileiro, n. 174, Sonho e razão no mundo ibérico, julho-setembro de 2008)