Publicado por: rafael ruiz | 13/06/2009

Por que Matrix tem poder de atração?

Nesse final de semana, os cinemas da cidade ficarão provavelmente lotados para assistir à segunda parte da trilogia de Matrix. Muitas são as teorias e as explicações que já foram dadas para explicar os motivos do seu poder de atração. Gostaria de poder acrescentar mais uma, mesmo correndo o risco de “chover sobre o molhado”.
O mundo de Matrix, um mundo que nos identifica e nos nomeia enquanto pertencentes ao “mundo moderno”, está dividido em dois: aqueles que confiam nas máquinas e aqueles que confiam, que ainda confiam, nas pessoas.
O mundo da máquina é o mundo, como diria o agente Smith, que a gente sempre sonhou. As coisas dão certo, não há nenhuma dúvida, tudo, absolutamente tudo, está sob controle. Já o mundo das pessoas é exatamente o contrário: há muitos furos, há inúmeras incertezas, e tudo, praticamente tudo, está fora do nosso controle.
Não gosto de pensar que não controlo a minha vida. É a resposta de Neo no primeiro encontro com Morfeus. É a grande sedução e o grande engano que a Modernidade ofereceu à sociedade humana. Desde que Francis Bacon e Descartes assentaram os princípios do “conhecimento moderno”, a técnica tem realizado inúmeros e inegáveis progressos. O preço a pagar tem sido alto: estamos correndo sério risco de deixar de ser pessoas e convertermo-nos num aglomerado de Smiths, porque acreditamos que podemos ter o controle sobre a nossa vida.
Será necessária uma longa aprendizagem, que passa pelo sofrimento, como os clássicos gregos sempre afirmaram, para Neo se convencer de que é melhor se manter humano, continuar sendo pessoa, correndo o risco de viver num mundo incerto, inseguro e, tantas vezes, submetido a falhas.
O decisivo para sair de Matrix é seguir o “Coelho Branco” para chegar até a festa onde Neo se encontrará com Trinity. Por que essa referência a Lewis Carrol e sua “Alice no País das Maravilhas”? Porque o Coelho Branco somos tantos de nós, correndo apressados, angustiados, esbaforidos até….”Estou atrasado! estou atrasado! estou atrasado!, sem saber o sentido de por quê tanta pressa. Só que para seguir o Coelho Branco, para ter uma reação de estranhamento com ele, para que realmente nos chame a atenção a sua pressa é preciso que a gente se tenha feito alguma vez essa questão: Para quê tudo isso? aonde estou querendo chegar? por que tudo tem de ser assim tão….tão…Nessa altura não se encontra o adjetivo que defina o mundo em que estamos, mas se encontra a porta de saída dele. É o que Trinity explica para Neo, na festa: Eu sei por que você vive assim, eu sei por que você não consegue dormir à noite…É a pergunta, Neo. A pergunta é o que nos move.
O difícil, o verdadeiramente difícil de realizar, é romper com o mundo mecanizado e “clean” oferecido por Matrix, onde temos certeza de tudo, até das possíveis falhas que possam acontecer, como o déja vu, e adentrar-se num mundo de relações e afetos inter-pessoais onde o que impera é a incerteza e a insegurança. É por isso que o primeiro contato entre Neo e Morfeus acaba num fracasso. Morfeus fala no celular tentando ajudar Neo a escapar da perseguição dos Smiths. Se prestarmos atenção, Morfeus exige que Neo confie nele mais de dez vezes. Na última, quando se vê diante da janela, a resposta de Neo é terminante: De jeito nenhum. E os Smiths conseguem agarrá-lo.
O admirável mundo novo que seria criado pelos tempos modernos carregaria em si uma profunda desconfiança no homem e uma profunda confiança no sistema dominado pela técnica e a racionalidade. A Modernidade nos ensinou que se quiséssemos viver em sociedade e ser, ao mesmo tempo, felizes, não poderíamos depositar a confiança no homem, comprovadamente um dos seres, se não o único, mais falíveis do planeta. Tínhamos de optar por confiar na razão pura, na técnica precisa, na ciência objetiva. Uma das conseqüências mais funestas do triunfo da “razão eficiente” no mundo contemporâneo é o argumento de que a simples razão, a pura técnica se justificam porque “é assim que a coisa funciona”. O que Matrix resgata em cada um de nós é precisamente a pergunta: E se as coisas não fossem assim? Basta olhar para uma grande parcela da humanidade para dar-se conta de que nem todos se importam com esse tipo de argumentos, de que a eficácia e a eficiência não são os valores supremos para a maioria das pessoas, de que são muitos os que não estão dispostos a pagar o preço que a técnica cobra do mundo moderno: a renúncia a continuar sendo humanos
Matrix fala do mundo virtual e de programas que se carregam e esbanja uma enorme quantidade de efeitos técnicos e especiais. Mas fala também de que se torna preciso o reencontro do homem consigo mesmo. Um homem que não esteja cindido entre razão e sentimento, objetividade e subjetividade, eficácia e ineficácia. Matrix atrai porque tenta responder a um novo modelo de sociedade, onde seja possível a existência e a compreensão do homem como um todo; onde não seja necessário proceder a um esfacelamento do próprio homem para poder viver; onde os laços sentimentais e afetivos não entrem necessariamente em choque com raciocínios e argumentos técnicos; onde se possa viver como homens e mulheres mesmo que às vezes, ou mesmo que muitas vezes, “a coisa não funcione”, porque como Morfeus explica para Neo há muita diferença entre conhecer o caminho e percorrê-lo.
Matrix atrai porque propõe o homem como um sistema aberto e em frágil equilíbrio tanto perante o desconhecido, o inefável e o imprevisível como perante o engano, a mentira e o erro, que são as dimensões e o espaço onde pode exercer-se a liberdade.
Parafraseando uns versos de Walt Whitman perante o mundo vazio e sórdido que lhe tocou viver, Matrix nos força também a perguntar-nos, como o poeta, perante o mundo que nos tocou viver: O que há de bom em tudo isto? resposta: que você está aqui; que a vida existe e que há identidade. Que o poderoso jogo da vida continua, e você pode contribuir com um verso. Mas, para dar ao mundo o nosso verso, é preciso que queiramos continuar sendo humanos, fragilmente humanos.

Rafael Ruiz


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