A IMPORTÂNCIA DA LITERATURA NA ERA DIGITAL

Introdução

Talvez seja necessário tentar explicar o significado de uma aula com esse título: por que quero falar da Literatura como forma de conhecimento e, especificamente, como forma de conhecimento do que venha a ser “humano”?

Estamos na era digital. O conhecimento que possuímos é tão grande que talvez nunca antes teríamos sonhado algo assim. Contudo, que tipo de conhecimento é esse?

Em lugar de tentar definir esse tipo de conhecimento, do qual todos temos uma clara percepção, porque se não, não estaríamos aqui, vou fazer outro tipo de questionamento: esse tipo de conhecimento permite-nos conhecermo-nos melhor? saber quem somos? como somos?

Mais ainda: permite-nos saber como agir mais humanamente diante dos diferentes relacionamentos e problemas que a vida nos apresenta?

Penso que não. O conhecimento da era digital é um conhecimento que não aprofunda nas nuances, nas complexidades, nos paradoxos do ser humano. Para ter capacidade de chegar a esse tipo de conhecimento precisamos de outro recurso, de outra fonte.

Na aula em que tomou posse da cadeira de Literatura no Colégio de França, Antoine Compaignon perguntava-se também por que ainda hoje ler literatura, “Literatura para quê?” era a sua pergunta. E respondia com uma citação de Ítalo Calvino que gostaria de trazer aqui:

“As coisas que a Literatura pode procurar e ensinar são pouco numerosas mas insubstituíveis: a maneira de ver o próximo e si mesmo, de atribuir valor às coisas pequenas ou grandes, de encontrar as proporções da vida, e o lugar do amor nela, e sua força e o seu ritmo, e o lugar da morte, a maneira de pensar ou não pensar nela” e outras coisas “necessárias e difíceis” como “a rudeza, a piedade, a tristeza, a ironia e o humor”.

Qualquer tentativa de definição, de conceituação e de redução a uma categoria dessas realidades é, no mínimo, uma aviltação. Sou consciente de que o homem tecnificado da época moderna, o cientista de “núcleo duro” dirá que nada disso é útil ou importante, que nada disso resolve nenhum problema. E concordo. Não resolve mesmo nenhum problema, porque a vida não é um problema que precisa ser resolvido. A vida é um drama, que tem de ser vivido; melhor, que cada um de nós vive, melhor ou pior, na medida que compreende bem o que é ser humano. Por isso a literatura.

O mundo digital ainda é herdeiro do método cartesiano. Que exige de nós que separemos algo que, de fato e existencialmente, não está separado. Quem de nós consegue separar razão de sentimento?  Nada mais difícil, para a era digital, do que lidar com a verdade, a força e a imediatez dos sentimentos.

O filósofo judeu-austríaco Martin Buber, morto em 1965, apontava para uma dos graves problemas da existência moderna quando dizia que há quatro aspectos essenciais em qualquer relação humana (eu-tu): reciprocidade, presença, imediatez e responsabilidade. Não vou entrar nessa discussão, quero apenas afirmar a minha opinião de que o mundo está cada vez mais digital e cada vez menos humanos porque estamos perdendo o contacto com esses aspectos essenciais da existência humana.

Talvez por isso a Modernidade esteja destruindo aquilo que há de mais cálido, de mais forte e de mais humano nos homens: os sentimentos. Os sentimentos não são “fatos exteriores”, não são “algo que nos passa”. São o que de mais íntimo e de mais profundo temos como seres humanos. E não se entendem nem se compreendem bem do ponto de vista digital pelo simples motivo de que não podem ser digitalizados. Para atingir a verdade do ser humano é preciso estar presentes. Necessitamos da imediatez de uns olhos que nos olham e para quem olhamos, sem a intermediação de uma tela de computador. Dessa forma, estaremos em condições de adentrar na complexidade humana. Uma complexidade que muitas vezes chega até nós, em primeiro lugar, por meio dos sentimentos, mais, por meio de uma percepção sentimental, que nos envolve como um todo, nos perturba, nos inquieta, nos entusiasma, e nos faz compreender o que é ser humano.

É aí que entra a Literatura como uma forma específica e qualificada de conhecimento. Não é um conhecimento objetivo, nem isento, nem distante. A Literatura envolve o leitor e o livro, o eu do leitor com os muitos eus das personagens, aproxima experiências, força a comparação, faz com que nós, enquanto leitores, não abdiquemos da nossa condição de humanos: quando lemos, voltamo-nos para o nosso próprio interior, adentramos no interior das personagens e avaliamos e julgamos os seus e os nossos comportamentos e atos. E é disso precisamente que a Modernidade está mais necessitada: de uma forma de conhecimento que não é nem analítica, nem digital, nem simplificadora, mas é reflexiva, intimista e complexa. O mundo hoje precisa dessa forma de conhecimento. E precisa porque foram muitos os anos em que esse conhecimento, do ambíguo, do difuso e do complexo, foi desqualificado. Mas a sua desqualificação não significa nem a sua inexistência nem a sua falta de carência. Todos carecemos de sentimentos. Mais, todos somos estruturalmente carentes e essa verdade nos perturba bem na era digital. Procuramos suprir a carência com virtualidades, com redes sociais, com amigos e mais amigos que curtiram ou não curtiram…..Banal. Profundamente banal. Precisamos é de literatura, como método de sobrevivência nesse mundo que está nos deixando cada vez mais isolados e neuróticos.

A Modernidade e as relações humanas

Talvez já tenham lido a obra de J.D. Salinger, O apanhador no campo de centeio, onde a personagem central, Holden, tem um sonho em que vê um monte de meninos alegres e despreocupados brincando num campo de centeio. Ele os olha desde um outeiro e percebe que os garotos não estão enxergando que no fim do campo há um abismo, por onde, sem dar-se conta, vão caindo. Dois capítulos depois, Holden vai à casa do Prof. Antolini e depois de algumas frases intranscendentes, o professor lhe diz que tem a impressão de que o Holden está caindo por um abismo cuja queda é especial.

É do tipo horrível, porque a gente cai, cai e não percebe nem sente nada. Não nos damos conta que estamos caindo, mas estamos. É o tipo de queda –diz o professor- que só acontece com aqueles que procuram alguma coisa que o seu próprio meio não pode lhes proporcionar e abandonam a busca. Abandonam-na antes mesmo de começá-la.

Qual é o meio em que estamos? civilização técnica. Prometeram-nos tudo: felicidade, vida justa, progresso contínuo, conhecimento e sabedoria. O que é que tivemos de pagar?

Aldous Huxley, Admirável mundo novo, p. 363.

Numa sociedade convenientemente organizada como a nossa, ninguém tem oportunidade para ser nobre ou heróico. É preciso que as coisas se tornem profundamente instáveis para que tal oportunidade possa apresentar-se. Onde houver guerras, onde houver obrigações de fidelidade múltiplas e antagônicas, onde houver tentações a que se deva resistir, objetos de amor pelos quais se deva combater ou que seja preciso defender, aí, evidentemente, a nobreza e o heroísmo terão algum sentido. Mas não há guerras em nossos dias. Toma-se o maior cuidado em evitar amores extremados, seja por quem for. Não há nada que se assemelhe a obrigações de fidelidade antagônicas….E o que se deve fazer é, em geral, tão agradável, deixa-se margem a tão grande número de impulsos naturais, que não há verdadeiramente tentações a que se deva resistir….. No passado, não era possível alcançar essas coisas senão com grande esforço e depois de anos de penoso treinamento moral. Hoje, tomam-se dois ou três comprimidos de meio grama e pronto. Todos podem ser virtuosos agora. Pode-se carregar consigo mesmo, num frasco, pelo menos a metade da própria moralidade. O cristianismo sem lágrimas, eis o que é o soma.

– Mas as lágrimas são necessárias. Não se lembra do que disse Otelo? “Se depois de toda tempestade vêm tais calmarias, então que soprem os ventos até acordar a morte!” Há uma história que os velhos índios costumavam contar a respeito da Donzela de Mátsaki. Os jovens que desejavam desposá-la deviam passar a manhã capinando o seu jardim com uma enxada. Parecia fácil, mas havia moscas e mosquitos encantados. A maioria dos jovens simplesmente não podia suportar as picadas. Mas aquele que pôde suportá-las ficou com a moça.

– Encantador! mas nos países civilizados –disse Mustafá Mond- podem-se ter moças sem precisar capinar para elas, e não há moscas nem mosquitos que piquem. Há séculos que nos livramos completamente deles.

O Selvagem inclinou a cabeça em aquiescência, franzindo o sobrolho.

– Livraram-se deles. Sim, é bem o modo de os senhores procederem. Livrar-se de tudo o que é desagradável, em vez de aprender a suportá-lo. Se é mais nobre para a alma sofrer os golpes de funda e as flechas da fortuna adversa, ou pegar em armas contra um oceano de desgraças e, fazendo-lhes frente destruí-las… Mas os senhores não fazem nem uma coisa nem outra. Não sofrem e não enfrentam. Suprimem, simplesmente, as pedras e as flechas. É fácil demais… O que os senhores precisam é de alguma coisa com lágrimas, para variar. Nada custa bastante caro aqui.

Montamos um mundo cômodo, eficiente e tranquilo. Onde nada custa muito esforço. Tudo pode ser conseguido num clicar instantâneo: desde a compra de um carro até um programa sexual, passando por visitas a museus e downdloads de filmes, eróticos ou cult. Trocamos conforto por esforço. Trocamos educação por adestramento. Não temos mais condições de enfrentar os pequenos esforços e sofrimentos cotidianos que o ser humano, que vive no tempo e no espaço, precisaria enfrentar. Nós acabamos com as noções newtonianas de tempo e espaço e queremos tudo já. Não estamos dispostos a enfrentar a virtude, porque a virtude exige esforço, contrariedade, processo ascético. E em troca a Modernidade deu-nos a técnica, a dica, a competência e a habilidade. No fundo, queremos ser melhores, queremos ser perfeitos, mas queremos isso num abrir e fechar de olhos, como resultado de uma técnica aplicada, e não como resultado de um esforço cotidiano ao longo de muito tempo. Suprimimos as incomodidades, as dores e os esforços, em troca de uma vida boa e confortável, onde possamos ter nossos pequenos vícios, sem correr riscos.

A “façanha” da Modernidade consistiu em fazer-nos acreditar que a ciência e a técnica dar-nos-iam o poder sobre a Natureza e o controle de nós mesmos e das coisas. Contudo, o século XX assistiu ao desmoronar dos relacionamentos. Somos incapazes de criar relações, de formar vínculos. Temos tanto medo de sofrer, revolta-nos tanto sentir-nos vulneráveis e carentes que preferimos não ter vínculo nenhum e, quando tentamos ter, não sabemos como fazer, porque já criamos uma couraça ao nosso redor.

Susanna Tamaro, Vá aonde seu coração mandar (p. 15)

A infância e a velhice se parecem. Em ambos os casos, por motivos diferentes, somos bastante vulneráveis, ainda não somos –ou já deixamos de ser- partícipes da vida ativa, o que nos permite viver com a sensibilidade aberta, não-esquemática. É durante a adolescência que uma invisível couraça começa a formar-se ao nosso redor. Forma-se durante a adolescência, e continua endurecendo por toda a vida adulta. O processo do seu crescimento é um tanto parecido com o das pérolas: quanto maior e mais profunda a ferida, mais forte a couraçaa que se forma em volta. Mais tarde, no entanto, como uma roupa que se usou demasiado, nos pontos de maior atrito começa a desgastar-se, deixa entrever a trama, rasga-se de repente a qualquer movimento brusco. No começo, nem nos damos conta, ainda nos achamos totalmente envolvidos pela couraça, até que um dia, diante de alguma coisa boba e sem saber por quê, de repente choramos como uma criança.

De forma que, quando afirmo que entre nós duas surgiu uma divergência natural, é justamente isto que quero dizer. Na época em que a sua couraça começou a formar-se, a minha já estava em frangalhos. Você não suportava as minhas lágrimas, e eu, a sua improvisada dureza.

Diante de um mundo que exige eficiência técnica e racional, controle das emoções, separação do mundo pessoal e do mundo empresarial; diante de uma sociedade onde chorar, sorrir ou emocionar-se é coisa de fracos e de perdedores, onde a chave do sucesso é a frieza emocional, o cálculo e a eficácia, o resultado final é que precisamos criar uma forte couraça para não sentir nada, para não sofrer nada, para tornar-nos uns autênticos cegos e surdos afetivos. Ou seja, para sermos iguais a uma máquina.

Tamaro, (p. 31).

Cresci, pois, com a sensação de ser uma espécie de macaco a ser treinado, e não um ser humano, uma pessoa com as suas alegrias, decepções, com a sua necessidade de ser amada. Este desconforto fez logo brotar em mim uma grande solidão, uma solidão que com os anos avultou-se, uma espécie de vazio pneumático em que me movia com os gestos lentos e desengonçados de um escafandrista. A solidão também nascia das perguntas, perguntas que fazia a mim mesma e às quais não sabia responder.

O que foi que aconteceu conosco? tornamo-nos frios, insensíveis, distantes, duros…..porque, se não, não triunfaremos na era digital.

Tamaro, p. 16

Volta à mente o dia da sua partida: lembra como ambas estávamos nervosas? Você não me deixou levá-la ao aeroporto, e cada coisa que lhe pedia não esquecer provocava de você a mesma resposta: Estou indo para a América, não para o deserto. Quando da porta, com a minha voz odiosamente estridente gritei: cuide-se bem, despediu-se sem se virar dizendo: Tome conta do Buck e da rosa.

Para dizer a verdade na hora fiquei um tanto decepcionada com a sua despedida. Velha e sentimental como sou, esperava um quê de diferente e mais banal, algo como um beijo ou uma frase carinhosa. Só à noite, quando perambulava de roupão pela casa sem conseguir dormir, percebi que cuidar de Buck e da rosa queria dizer cuidar da sua parte que continua a viver ao meu lado, a sua parte feliz. E também percebi que na rispidez daquela ordem não havia insensibilidade, mas sim a tensão extrema de quem está prestes a chorar. É a tal couraça de que falei. Por enquanto, a sua lhe fica tão justa, que você quase não consegue respirar. Lembra-se do que costumava dizer-lhe nos últimos tempos? as lágrimas que não saem depositam-se no coração, com o passar do tempo incrustam-se nele e paralisam-no, tal como os depósitos calcários se incrustam e paralisam as engrenagens de uma máquina de lavar.

            Quais são os tipos de conduta exigidos pelo mundo moderno, pelo mundo digital?:

  1. cortar todos os laços afetivos em prol do trabalho e do sucesso. Frankenstein:

É difícil conceber a variedade de sentimentos que me impeliam para a frente, no primeiro arrebatamento do êxito. Eu seria o primeiro a romper os laços entre a vida e a morte, fazendo jorrar uma nova luz nas trevas do mundo. Seria o criador de uma nova espécie –seres felizes, puros, que iriam dever-me a sua existência.

…. Eu parecia ter perdido a alma e tinha chegado ao ponto de alijar de mim qualquer sensação, a não ser em função da minha obra…. Passaram-se os meses de verão, enquanto eu continuava entregue de corpo e alma à minha tarefa…. Eu não tinha mais olhos para a natureza. Em meio ao meu alheamento total, esqueci até os amigos, tão distantes, e que havia tanto tempo não encontrava.

 

  1. Mergulhar pura e simplesmente no trabalho: workalholic

Mitch Albom, A ultima grande lição, p. 40-42.

A cultura que temos não contribui para que as pessoas se sintam felizes com elas mesmas. É preciso ser forte para dizer que, se a cultura não serve, não interessa ficar com ela (p. 41). O que foi que aconteceu comigo? Aconteceram os anos 1980. Aconteceram os 1990. Morte e doença, gordura no corpo e calvície aconteceram. Barganhei montes de sonhos por cheques cada vez mais gordos e nem percebi que estava fazendo isso.

E agora Morrie na minha frente, falando com o entusiasmo de nossos anos de universidade, como se simplesmente eu tivesse chegado de umas férias proongadas.

– Encontrou alguém com quem dividir o coração?…Tem procurado ser humano ao máximo da sua possibilidade?

Eu me contorcia….Já estava ha dez anos em Detroit, no mesmo local de trabalho, utilizando o mesmo banco, frequentando o mesmo barbeiro. Tinha trinta e sete anos, era mais aplicado do que na universidade, vivia ligado a computadores, modems e telefones celulares. Escrevia sobre atletas ricos, que na maioria nem estavam aí para pessoas como eu…Meus dias eram cheios, e no entanto eu vivia insatisfeito a maior parte do tempo. O que foi que aconteceu comigo?

Eu criei a minha própria cultura – a do trabalho. Fiz quatro ou cinco matérias na Inglaterra, com elas praticando malabarismos como palhaço. Passava oito horas por dia num computador, mandando matérias para os Estados Unidos. Fiz matérias para a televisão, viajando com uma equipe por várias partes de Londres. Toda manhã e toda tarde mandava reportagens de rádio por telefone. Não se tratava de uma atividade incomum. Durante anos, fiz do trabalho o meu companheiro, e empurrei tudo o mais para o escanteio… O que foi que aconteceu comigo?

  1. . ficar indiferente a tudo e todos. Dostoiévski, Sonho de um homem ridículo, p. 92

Talvez porque na minha alma viesse crescendo uma melancolia terrível por causa de uma circunstância que já estava infinitamente acima de todo o meu ser: mais precisamente –ocorrera-me a convicção de que no mundo, em qualquer canto, tudo tanto faz(…) Senti de repente que para mim dava no mesmo que existisse um mundo ou que nada houvesse em lugar nenhum. Passei a perceber e a sentir com todo o meu ser que diante de mim não havia nada. No começo me parecia sempre que, em compensação, tinha havido muita coisa antes, mas depois intuí que antes também não tinha havido nada, apenas parecia haver, não sei por quê. Pouco a pouco me convenci de que também não vai haver nada jamais. Então de repente parei de me zangar com as pessoas e passei a quase nem notá-las(…)sobre aquilo que eu tinha para pensar, já então cessara completamente de pensar: tudo me era indiferente. E se ao menos eu tivesse resolvido as questões; ah, não resolvi nenhuma, e quantas havia? Mas para mim tudo ficou indiferente, e as questões todas se afastaram.

Como foi que chegamos a esse ponto? O que é que está acontecendo conosco?

A Modernidade, para conseguir o seu Admirável mundo novo, criou um homem abstrato, que não é real:

Unamuno, (Del sentimineto trágico, p. 9-10).

Porque o adjetivo humanus me é tão suspeito quanto o seu substantivo abstrato humanitas, a humanidade. Nem o humano nem a humanidade, nem o adjetivo simples, nem o adjetivo substantivado, mas o substantivo concreto: o homem. O homem de carne e osso, que nasce, sofre e morre –sobre tudo morre-, que come, e bebe, e brinca, e dorme, e pensa, e quer, o homem que se vê e a quem se ouve, o irmão, o verdadeiro irmão.

Porque há outra coisa, que também chamam de homem, e é o sujeito de não poucas divagações mais ou menos científicas. E é o bípede sem penas da lenda, o zoón politicon de Aristóteles, o contratante social de Rousseau, o homo oeconomicus dos manchesterianos, o homo sapiens de Linneo ou, se se quiser, o mamífero vertical. Um homem que não é nem daqui nem dali nem desta época nem da outra, que não tem nem sexo nem pátria, uma idéia, em fim. Isto é, um não-homem.

(…) o homem, dizem, é um animal racional. Não sei por que não se disse que é um animal afetivo ou sentimental. E talvez o que o diferencia mais dos outros animais seja mais o sentimento do que a razão. Vi mais vezes raciocinar um gato do que rir ou chorar”.

Falta-nos literatura.

E a função do artista, do poeta e, muito concretamente, do jornalista seria a de educar os sentimentos do povo, não deixá-lo só, que sintam que tem muita gente enjoada, que vejam que o que está certo, está certo e o errado, errado. Mas, para isso, é preciso que o artista e o jornalista eduquem primeiro os seus próprios sentimentos, consigam perceber que nem tudo dá na mesma, que nem tudo é relativo, que tem coisas diante das quais é preciso revoltar-se e que tem coisas diante das quais é preciso ficar enjoados ou revoltados ou entusiasmados e esperançados. Somos capazes disso ou, para nós, tudo também dá na mesma?

A literatura é um exercício de pensamento; a leitura, uma experimentação dos possíveis. Nunca nada me fez melhor perceber a angústia da culpa que as páginas febris de Crime e Castigo onde Raskolnikov reflete sobre um crime que não aconteceu e que cada um de nós cometeu….a literatura visa menos a enunciar verdades que a introduzir em nossas certezas a dúvida, a ambiguidade e a interrogação. ‘A onipresença do pensamento, conclui Kundera, não tirou em absoluto do romance o caráter de romance; ela enriqueceu a forma e aumentou imensamente o domínio daquilo que só o romance pode descobrir e dizer’.

É assim que um romance muda nossa vida sem que haja uma razão determinada para isso, sem que o efeito da leitura possa ser reconduzido a um enunciado de verdade. Não é tal frase de Proust que fez com que eu me tornasse quem sou, mas toda a leitura de Em busca do tempo perdido, depois de O vermelho e o negro e de Crime e castigo, porque Em busca…amalgamou todos os livros que eu havia lido até então. ‘Torne-se quem você é!’, murmura-me a literatura, segundo a injunção das Segundas píticas de Píndaro, retomada por Nietzsche em Assim falava Zaratustra( Antoine Compaignon, literatura para quê, p. 53).

Trata-se disso: a literatura permite-nos tornar-nos aqueles que somos.

Conferência pronunciada no Seminário do Master Digital, São Paulo.